quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

Deuteronômio

1
1-5
Termina a etapa educativa do deserto e Israel se prepara para entrar na terra prometida. O livro todo é uma instrução inculcada, isto é, que deve ser continuamente repetida e relembrada, a fim de que Israel realize um novo projeto de vida, ao se fixar na terra.
6-18
A meta da libertação é a terra prometida. Não basta, porém, chegar aí. É preciso construir uma sociedade nova, onde se realize a justiça, que é fonte de liberdade e dignidade. Para isso deve ser criada uma estrutura que funcione de forma imparcial, para que as relações sejam justas.
19-33
Cf. nota em Nm 13,1-33. Moisés deixa claro que o projeto, em que o povo está envolvido, é o projeto de Deus: não há o que temer. Pela primeira vez na Bíblia, Javé é apresentado como pai, e Israel como seu filho: o povo de Deus é formado de irmãos, chamados a viver em fraternidade.
34-46
Quando o povo se acovarda, abandonando a luta que o projeto de Deus exige, esse projeto se esvazia e o processo histórico fica retardado. É inútil querer antecipar ou atrasar o projeto de Deus: desse modo, o povo não chega a lugar nenhum. Cf. também nota em Nm 14,1-45.
2
1-25
A terra dos amorreus (ou cananeus) é dada a Israel para que este construa aí uma nova sociedade. Por outro lado, israel deve respeitar os territórios de Edom, Moab e Amon, pois essas nações "parentes" já vivem uma forma alternativa de sociedade.
26-37
Cf. nota em Nm 21,21-35. Sobre o anátema, cf. Nm 21,1-3.
3
1-11
Og é uma personagem quase desconhecida. Provavelmente foi derrotado por amonitas, dos quais um grupo se uniu mais tarde aos israelitas. Pouco a pouco, os grupos vão se unindo na luta para formar um novo povo, com projeto alternativo de sociedade, cujo único Deus é Javé.
12-22
Cf. nota em Nm 32,1-42.
23-29
Moisés é solidário a uma geração que duvidou do projeto de Javé (cf. Nm 20,1-13). Apesar de ver a meta de chegada, o líder está profundamente comprometido com o povo e participa da sua incerteza. Somente uma geração nova conquistará um espaço novo.
4
1-8
O Deuteronômio é um conjunto de estatutos e normas que visam levar a uma prática de vida conforme a Aliança com Javé, dentro da terra prometida. Trata-se de uma nova constituição. Com ela, Israel viverá segundo a sabedoria e a justiça, isto é, segundo o projeto de Javé. Não há nenhum legalismo, pois entre Javé e seu povo existe uma relação de parceiros: Javé responde todas as vezes que é invocado. Javé é um Deus que não fica preso as leis,mas está sempre aberto para responder às novas  situações  do povo.
9-20
Israel deve lembrar-se permanentemente do acontecimento libertador, que fundou a sua existência como povo. No momento da Aliança, Israel não viu uma forma; apenas viu a voz, que lhe comunicava o Decálogo como Constituição básica de uma vida social justa e digna. Israel, portanto, é um povo único: não deve adorar deuses dos opressores cananeus (imagens de homem e mulher), dos egípcios (imagens de animais) ou dos mesopotâmicos (adoração dos astros). A originalidade de Israel é ter descoberto o único Deus vivo que age na história: ele leva o seu povo para a liberdade e a vida, dentro de uma relação social justa e fraterna. Esse Deus não pode ser aprisionado numa representação visual ou em sistemas de pensamento. Javé é maior do que qualquer teologia.
21-31
O destino do povo na terra dependerá da sua fidelidade à Aliança e ao projeto de Javé. Se o povo praticar a idolatria, servindo a falsos absolutos, perderá a terra e irá para o exílio: seu maior castigo será servi a deuses que não poderão libertá-lo. Se o povo se converter, Javé intervirá, dando-lhe consciência e vida.
32-40:
A grande maravilha é Javé, o único Deus vivo que age na história. Sua ação nasce da fidelidade à Aliança, liberta o povo, lhe revela seu caminho e lhe dá a terra. Não existe outro Deus que faça isso: todos os outros são falsos absolutos.
41-43
Cf. nota rm Nm 35,9-34.
44-49
Estes dados resumem o que já foi apresentado em Dt 1-3.
5
1-22
Cf. nota em Ex 20,1-21. Note-se que o texto do Deuteronômio frisa uma atualização contínua da Aliança (v. 2). O 3º mandamento (vv. 12-15) tem motivação social: Israel já experimentou a escravidão; por isso, o repouso do sábado torna-se uma comemoração semanal da libertação. Além do mais, esse mandamento impulsiona para uma relação social igualitária: "Desse modo, seu escravo e sua escrava poderão repousar como você". O 9º e o 10º mandamentos aparecem bem distintos, pois o Deuteronômio usa dois verbos diferentes (cobiçar e desejar) para distinguir entre a mulher e as coisas pertencentes ao próximo. Acrescentando o campo como objeto de desejo, o texto condena um sistema econômico no qual o camponês pobre, e talvez endividado, acaba perdendo seu meio de subsistência.
23-31
O livro do Deuteronômio ("estatutos e normas"), escrito basicamente no séc. VIII a.C., é idealizado como o texto de uma renovação da aliança, feita em Moab, antes de Israel entrar na terra de Canaã. O texto se apresenta com autoridade porque provém de Deus, através de Moisés. Desse modo, todas as leis do Deuteronômio são apresentadas com o mesmo valor do Decálogo.
5,32-6,3
As leis a seguir (Dt 12-26) são apresentadas como vontade de Javé; é ele quem dirige o povo. Este, levando-as à prática, poderá organizar uma sociedade justa e prolongar sua vida na terra que Deus lhe dá.
4-9
Estes versículos são o núcleo fundamental da teologia do Deuteronômio. Javé é o único Deus. Portanto, a vida do homem também deve ser única, expressando uma resposta de adoração ao único Deus. Talresposta é um amor total, que penetra e informa a consciência (coração), o ser (alma) e a ação (força). Esse amor total deve ser interiorizado, tornando-se a base da consciência (coração). Deve construir o objeto primeiro e contínuo de toda educação (inculcar nos filhos), em todas as situações (sentado, andando, deitado, de pé). O amor é que dirige a ação (mãos) e as intenções (faixa entre os olhos). Deve ser vivido na família (batentes da casa) e na sociedade (portas da cidade). Mais do que leis, o Deuteronômio procura mostrar como deve ser a vida; uma resposta de amor a Deus, que se expressa em todas as relações humanas.
10-19
O grande risco da prosperidade é o fato de que ela pode vir acompanhada de um espírito de auto-suficiência que leva a esquecer Javé, o único Deus que liberta da escravidão. Essa auto-suficiência que leva a esquecer Javé, o único Deus que liberta da escravidão. Essa auto-suficiência produz a idolatria, mãe de novas escravidões. Javé é o Deus que suscita liberdade e vida. Por isso, só a ele o povo deve reconhecer como Deus (temor), adorando-o com sua própria vida (servir) e tornando-o como garantia de relações humanas autênticas (jurar pelo nome de Javé). Tentar a Deus e ter a ousadia de pedir a ele provas e sinais contrários ao seu projeto de liberdade e vida para todos.
20-25
O texto nos mostra que a família é o lugar privilegiado da catequese, e que educação humana e educação na fé são inseparáveis. O centro dessa educação é transmitir uma consciência do Dom que liberta e dá a vida.O povo concretiza tal experiência numa legislação (testemunhos, estatutos e normas - Dt 12-26). Essa legislação visa a sustentar a prática da justiça, a fim de manter uma vida social na liberdade e na dignidade.
7
1-6
Israel é povo consagrado exclusivamente a Javé, porque escolheu viver dentro de uma aliança com ele. E isso significa construir uma sociedade que se funda na justiça e provoca ruptura com o modo de viver de outras nações. O povo de Deus é chamado a romper de modo definitivo com qualquer sistema de sociedade que não corresponda ao projeto de Deus. A grande originalidade desse povo consiste em consagrar a sua vida no esforço de concretizar historicamente esse projeto divino que quer liberdade e vida para todos. Sobre o anátema, cf. nota em Nm 21,1-3.
7-15
Enquanto os homens costumam escolher os ricos e os poderosos para assegurarem ainda mais os próprios interesses e privilégios, Deus escolhe os pobres e fracos. No seu amor, Deus se alia aos oprimidos, liderando-os na conquista da liberdade e da vida, e ensinando-os a viver na fraternidade e partilha.Ele só quer que o povo realize o seu projeto: construir uma sociedade conforme a justiça e o direito, praticando uma legislação (normas, cf. Dt 12-26) que assegure a bênção de vida, saúde e prosperidade para todos. Cf. 1Cor 1,17-31 e nota.
16-26
Para formar uma sociedade segundo o projeto de Deus, o povo deverá enfrentar uma luta árdua contra as nações que têm outros projetos. Mas não deverá temer nem desanimar; basta rever a história e lembrar-se da grande vitória sobre o Faraó. Além disso, deverá destruir os falsos absolutos na opressão e desigualdade (ídolos, ideologias, riquezas etc.) O novo projeto de sociedade não pode ser contaminado com nada daquilo que sustentava o sistema anterior.
8
1-5
Entre a libertação e a formação de uma nova sociedade (terra) há um longo período de educação (deserto). Esse período visa a testar, de todos os modos, se o povo será capaz ou não de permanecer fiel ao projeto que iniciou. O grande risco seria acomodar-se numa situação de prosperidade e abundância já conseguidos (pão), esquecendo-se de que é preciso continuar sempre conquistando a liberdade e a vida para todos (aquilo que sai da boca de Javé = Decálogo). Sobre o v. 3, cf. nota em Mt 41-11.
6-20
O temor de Javé (v. 6) é o conceito básico de todo o livro. Insistindo em não esquecer Javé (vv. 11.14.19) e lembrar-se de Javé (v. 18), o texto critica a auto-suficiência de quem se esquece que Javé é o Senhor da liberdade e da vida e de que é ele quem concede os dons da vida. Quem se esquece disso, acaba transformando a liberdade em poder que gera a opressão, e os bens da vida em posse que, pela exploração e acumulação, gera a riqueza. Temer a Javé é lembrar-se sempre de que o homem não é Deus e nem pode usurpar o  lugar de Deus. É estar sempre consciente e os dons da vida a todos, para uma relação livre na partilha e na fraternidade. Esquecê-lo é perverter a consciência (v. 14), tornando-se auto-suficiente e absoluto, isto é, fechado em si mesmo. Isso acaba gerando soberba e o orgulho, que transforma a relação social em ganância pelo poder e cobiça pela posse.
9
1-6
A conquista da terra é dom de Javé para seu povo, e não mérito de Israel. Javé, o Senhor da história, realiza a justiça, aliando-se aos injustiçados para derrotar aqueles que fabricam a injustiça. O texto condena qualquer auto-suficiência baseada no mérito: um povo vitorioso numa revolução não é necessariamente mais justos do que os derrotados; ele também deverá aprender o caminho da justiça, para construir uma sociedade nova.
7-29
Para construir uma nova sociedade, é importante cada povo rever a própria história, para descobrir os erros e corrigir o próprio caminho. O bezerro de ouro é uma tentativa de representar visivelmente a presença de Javé. Isso traz o perigo de transformar Javé num ídolo, sempre manipulável, violando o primeiro mandamento do Decálogo. Diante da infidelidade, Javé quer destruir o povo e escolher outro. A súplica de moisés, porém, lembra que Javé está comprometido com o povo, em forma de promessa feita aos antepassados. Quebrando as tábuas, Moisés mostra que o comportamento do povo foi uma violação da Aliança. O bezerro feito pó é uma prova de que se trata apenas de um ídolo material, sem poder algum, Cf. também Ex 32 e notas.
10
1-11
O decálogo dentro da casa da Aliança é o sinal de compromisso: Israel precisa viver a aliança com Deus, formando uma sociedade justa e digna. Os levitas foram os principais responsáveis pelas instruções que vieram a formar o livro do Deuteronômio.
12-22
Viver em Aliança com Javé implica reconhecer que Javé é Deus e o homem não é Deus (temor), e que relaciona-se exclusivamente com Javé exige uma nova relação com todas as criaturas (amor). Viver esse amor-temor significa reconhecer Javé como único Deus (servir) e obedecer a sua vontade (mandamentos do Código Deuteronômico - cf. Dt 12-26). Não se trata de obediência formal: é necessária uma radical transformação da consciência, a fim de realizar a justiça de Javé, ou seja, comprometer-se com os pobres e marginalizados (imparcialidade, não aceitação de suborno, justiça para com o órfão, a viúva e o imigrante). A grandeza da Aliança consiste em ser aliado do Senhor do universo e da história, que quis unir-se aos pobres e oprimidos, para construir a história da liberdade e da vida.
11
1-7
O Código Deuteronômico (estatutos, normas e mandamentos - cf. Dt 12-26) é um compêndio de educação para o povo. Retomando experiência vivida, o texto salienta que o verdadeiro processo educativo consiste em transmitir a experiência concreta, que leva a um comportamento prático. A primeira coisa a ser transmitida é a experiência do Deus libertador que derrota os poderosos para tirar o povo da escravidão. Essa experiência fundamental leva as novas gerações a interiorizar uma lei que indica o caminho da liberdade e da vida. Sobre Datã e Abiram, cf. nota em Nm 16.
8-17
A vida do povo na terra dependerá de sua atitude para com Deus: se for fiel à Aliança, terá vida e prosperidade; se for infiel, terá carestia e  morte. Na terra da desigualdade (Egito), o sustento era custoso e exigia muito trabalho. Na terra onde reina a justiça de Javé (Terra Prometida), o dom da vida é repartido igualitariamente, proporcionando abundância e prosperidade para todo o povo.
18-32
Sobre os vv. 18-21, cf. nota em 6,4-9. A conquista da vida na terra dependerão da atitude que o povo tiver diante do projeto de Deus. Tal atitude acarretará bênçãos ou maldições: a bênção para a fidelidade ao projeto de Javé expresso nas leis do Deuteronômio, que ajudam o povo a viver na justiça e na prosperidade; a maldição, se o povo servir a outros deuses, realizando projetos contrários ao projeto de Javé.
12
1
Os capítulos 12-26, inseridos no segundo discurso de Moisés, são um conjunto de leis formando o projeto para uma nova sociedade. Essas leis não têm caráter jurídico. Elas se apresentam como instruções ou indicações para uma relação social justa, pois visam a uma sociedade igualitária, onde todos possam ter acesso à liberdade e à vida. O fundamento dessas leis é o decálogo (5,1-22), cujo espírito (amor e temor a Javé) é detalhado em leis que procuram responder aos conflitos concretos. Tomando no seu conjunto, o Código busca uma coerência entre a celebração da Aliança e a vida prática a ser vivida de acordo com a vontade de Javé.
12,2-13,1
O povo de Deus adora unicamente a Javé, o Deus libertador, mantendo-se longe do culto aos deuses opressores, que geram desigualdade e escravidão. Note-se que o santuário, segundo o Deuteronômio, não é o lugar da presença de Javé, mas o lugar do seu nome: no Templo o povo se reúne para rever a sua vida e projetar a sua história, invocando o parceiro da Aliança. As festas e celebrações têm sempre caráter social, porque nelas o povo e encontra e reparte alegremente os dons recebidos de Javé. O Dt relembra sempre o levita, cuja pregação formou as tradições que se cristalizaram neste livro. Sobre o sangue, cf. nota em Lv 17,1-16.
13
2-19
O texto reflete uma lei teórica, por que não apresenta uma prática comum, mas um ideal; neste caso, trata-se de eliminar completamente qualquer infiltração de idolatria. Para um povo liberto da escravidão e comprometido com o projeto de uma sociedade alternativa, o maior erro seria alienar-se novamente, aderindo a falsos absolutos, que só produzem escravidão.
14
1-2
Javé é o Deus vivo, e um dos pontos mais altos da revelação é apresentá-lo como Pai. O povo deve repartir a vida, dom de Deus, em clima de fraternidade. O v. 1 não trata propriamente do culto aos mortos, mas do culto a Baal, deus da natureza, adorado pelos cananeus. A morte de Baal era celebrada no início do verão, quando a vegetação desaparecia. Sobre o v. 2 cf. nota em 7,1-6.
3-21
Cf. nota em Lv 11,1-47.
22-29
O Deuteronômio encara toda a produção da natureza como o dom de Javé, que abençoa o seu povo. Para manter viva essa consciência da gratuidade e evitar o espírito de posse, o povo oferecerá o dízimo. Não se diz que esse dízimo seja reservado ao santuário ou aos sacerdotes: tudo é consumido num grande sacrifício de comunhão, onde todos se alegram repartindo entre si os dons que receberam. Além disso, a cada três anos recolhe-se um dízimo especial para beneficiar os deserdados (v. 29): era a maneira de provocar uma tomada de consciência sobre a desigualdade social e sobre a necessidade de criar relações econômicas justas, para que todos tenham vida digna.
15
1-11
O ano da remissão visava a possibilitar um recomeço de vida ao povo empobrecido e endividado. No projeto de Deus, a sociedade justa é aquela onde poder e riqueza são repartidos de modo que não haja oprimidos e pobres, mas sim liberdade e vida para todos. No povo de Deus, todos são irmãos e, enquanto houver um só pobre, a sociedade toda é responsável e deverá prover às necessidades dele. Enquanto o projeto de Deus não se concretiza historicamente, os pobres aí estão, clamando a Deus e exigindo justiça contra uma estrutura social pecaminosa.
12-18
Muitas pessoas ficavam tão empobrecidas e endividadas que se viam forçadas a vender a si mesmas com os filhos e filhas, para trabalhar como escravos. A lei concede a esses a possibilidade de recomeçar uma vida livre. Para isso, relembra aos patrões a experiência histórica da escravidão do Egito: o povo de Deus deve continuar realizando o gesto libertador de Deus no êxodo. Mas não basta dar a liberdade; é preciso dar a possibilidade de a pessoa recomeçar a vida.Por isso, é preciso repartir, com o escravo liberto, tudo o que foi ganho, graças a exploração da força de trabalho. A lei têm profundo caráter humanitário, pois iguala a situação do homem e da mulher (hebreu-hebréia) e nivela a relação entre senhor e escravo (irmãos).
19-23
O primogênito contêm simbolicamente em si toda a prole do rebanho, lembrando que Javé é quem sustenta a vida. Por isso, o animal primogênito não deve ser explorado comercialmente, mas ser oferecido e consumido em espírito de gratidão pelo dom de Deus.
16
1-17
Sobre a festa, cf. notas em Ex 12,1-14.15-20.21-28. O Dt destaca que as festas são ocasiões de alegria e gratidão, reconhecendo em Javé o Deus que dá liberdade e a vida. Note-se também que são momentos de confraternização social, onde desaparecem as desigualdades: as festas de Javé devem ser o sinal de uma sociedade que reparte entre todos a liberdade e a vida.
18-20
O exercício da autoridade mais necessário ao povo é o da justiça. Sua função é defender a causa do fraco e do pobre. Para isso, não se pode viciar a interpretação da lei, criando diferença entre as classes das pessoas julgadas. O mais sério, porém, é perverter a função da magistratura por interesses econômicos.
16,21-17,7
As leis de 16,21-22 estariam bem no cap. 12. Os postes sagrados (figuração de divindades femininas) e as estelas (figuração de divindades masculinas) são instrumentos do culto cananeu, que Israel deve evitar a qualquer custo. O texto de 17,2-7 talvez fizesse parte do conjunto do cap. 13. Cf. notas em 13, 2-19, e 15,21.
8-13
O santuário também funcionava como tribunal de última instância, dirigido pelo sacerdote e por um juíz delegado da causa. A sentença obriga em caráter irrevogável, pois é dada através de rituais de sorte, onde o próprio Javé age como juiz.
14-20
É a única vez que o Deuteronômio menciona o rei, e o faz de maneira crítica, apontando o limite da autoridade política. A lei reflete o espírito democrático das tribos do Norte: Javé escolhe o rei através do povo, e ele deve ser um dos irmãos, isto é, alguém que represente os anseios populares. Ao mesmo tempo, colocam-se restrições, para evitar desvios no exercício do poder. Condena-se qualquer regime arbitrário: como todo o povo, também o rei está a serviço da lei, e até mesmo a duração do seu governo depende disso. Para evitar que o rei se torne absoluto ordena-se: 1) que ele não multiplique seu exército, servindo-se do poderio militar para oprimir e escravizar o povo; 2) que ele não multiplique as esposas, não pelo casamento em si, mas porque tais casamentos implicam aliança com outras nações, acarretando acordos que poderiam trair a causa do povo; 3) que o rei não acumule riquezas, pois sua função é servir o povo, e não explorá-lo.
18
1-8
Proveniente do êxodo, o grupo dos levitas trouxe para as tribos a fé em Javé, o Deus libertador, que fermentava uma nova sociedade. Esse grupo não recebeu território próprio, mas vivia espalhado entre as tribos (cf. nota em Js 21). Havia dois tipos de levitas: um era mais ligado ao santuário e servia ao culto; outro, itinerante, cuidava de adaptar o Decálogo às novas situações vividas pelo povo. Os levitas itinerantes se identificavam com o povo marginalizado (Dt 12,12.19; 14,27; 16,11 etc.), e foram os principais responsáveis pela catequese que deu origem ao livro do Deuteronômio. Mostrando que havia conflito entre os levitas do santuário e os itinerantes, a lei em questão prevê igualdade de direitos para ambos os grupos.
9-22
Todas as nações têm ideólogos que procuram preservar e dirigir a história e a sociedade de acordo com os interesses da classe dominante. Na antiguidade, essa função era exercida pelos adivinhos, astrólogos e magos, que as autoridades consultavam para tomar decisões importantes. O povo de Deus, porém, deve pertencer exclusivamente a Deus; por isso terá pessoas  como Moisés, que orientarão para construir uma história e sociedade de acordo com o projeto do Deus do êxodo. Esse é o critério básico para distinguir entre o profeta e os ideólogos de uma sociedade contrária ao projeto de Deus.
19
1-13
Cf. nota em Nm 35,9-34. Conforme os vv. 11-13 do nosso texto, a sociedade toda (anciãos) torna-se responsável pelo derramamento de sangue inocente.
14
A terra, dom que Javé distribui igualitariamente entre todos, é sinal da participação na Aliança. Esta lei procura preservar a justa distribuição da terra, impedindo que a acumulação de terras crie latifúndios. Grandes propriedades na mão de poucos é um roubo do dom de Javé, que é para todos.
15-21
Toda pessoa tem direito à boa fama e honradez. Por isso, todo acusado tem direito de se defender contra as arbitrariedades e interesses do acusador. Sobre a lei do talião (v. 21), cf. nota em Ex 21,18-27.
20
1-9
A liberdade e a vida são dons de Deus para todos, e cada um tem o direito inalienável de usufruir delas. Por isso, o povo oprimido e explorado tem todo o direito de se organizar e lutar para reaver que lhe foram roubados.
A lei mostra profundo respeito pela vida: as exceções completam o direito de cada pessoa gozar do trabalho que ainda não foi usufruído (vv. 5-6) e o direito à descendência (v. 7). Aqui, no contexto de uma luta apoiada por Deus (vv. 1-4), o modo (v.8) indica falta de fé e confiança.
10-18
As cidades-estado de Canaã deverão ser completamente exterminadas, para evitar contaminações edeológicas e políticas (sobre a lei do anátema, cf. nota em Nm 21,1-3). Quanto às cidades distantes, a tática é fazer alianças. Quando isso não for possível, a força da resistência deverá ser eliminada (extermínio dos homens).
19-20
A lei mostra uma preocupação ecológica: é questão de bom senso usar da melhor forma a natureza, mantendo para com ela aquele respeito que trará benefícios  para o próprio homem.
21
1-9
A vida é o maior dom de Deus, e a sociedade é responsável pela vida de todos e de cada um. O sangue derramado clama a Deus: se ele não for reparado de algum modo, a culpa recairá sobre a sociedade inteira. Todo homicídio transforma-se numa acusação contra a sociedade, pois esta gerou as condições que produzem a morte.
10-14
A mulher é um ser humano que deve ser respeito exatamente como qualquer homem. Ela tem direito de viver seus próprios sentimentos e não ser rebaixada na sua liberdade e dignidade. Homem nenhum tem o direito de tratar a mulher como simples objeto, ao sabor dos próprios interesses e caprichos.
15-17
Em família, as preferências dos pais não devem ser causa de injustiça em relação aos filhos.
18-21
Essa lei é uma espécie de comentário ao mandamento: "Honre seu pai e sua mãe" (Dt 5,16). Ele salienta a importância da educação familiar. Numa situação patriarcal, onde a família é o alicerce da sociedade, o filho incorrigível se transforma em ameaça social. Provavelmente trata-se de uma lei teórica, nunca aplicada.
22-23
A suspensão de um sentenciado numa árvore visava servir de exemplo. O Deuteronômio limita o tempo de exposição do sentenciado, porque o cadáver contamina a terra prometida, que é terra de vida. Paulo aplica o texto a Jesus crucificado (cf. nota em Gl 3,6-14).
22
1-4
Numa sociedade verdadeiramente fraterna, cada um se interessa pelas coisas do irmão, como se fossem suas. O v. 4 parece aludir ao respeito para com a vida animal.
5
A lei parece proibir qualquer perturbação da ordem da natureza. E parece aludir também a certas práticas do culto cananeu, onde havia prostituição sagrada.
6-7
O respeito à maternidade não se restringe ao mundo humano: deve-se respeitar também a maternidade dos animais.
8
O bem particular de uma pessoa não pode prejudicar o bem comum, e sim beneficiar a todos. Esta lei faz pensar nas condições de segurança na moradia, trabalho, transporte, ambientes de lazer etc.
9-12
Segundo o pensamento dos israelitas, Deus criou separação entre os seres (Gn 1). Misturar coisas diferentes seria introduzi-las na esfera de Deus, tornando-as "consagradas". O v. 12 alude provavelmente à veste típica do israelita, um dos sinais de sua nacionalidade.
13-21
A lei visa a proteger a fama da mulher, dando-lhe o direito da defesa. O clima é patriarcal e, por isso, não exige a mesma coisa do homem. Note-se que o fato não é considerado como ofensa pessoal, mas como desordem social.
22
A lei é um comentário de 5,18. O adultério é visto como desordem social.
23-27
Juridicamente, estar prometida em casamento era mesmo que estar casada, ainda que o casamento não estivesse consumado. O caso, portanto, é o mesmo do v. 22, com a atenuante dos vv. 25-27.
28-29
Tanto aqui como nos casos anteriores, não está em questão a moralidade  do ato sexual, mas um problema de justiça. Nos vv. 28-29, a jovem violentada seria recusada para outro casamento.
23
1
"Estender o pano do manto" sobre a mulher quer dizer casar-se com ela. "Retirar o pano do manto" é um atentado aos direitos do marido.
2-9
Durante as grandes festas a lei prevê um regulamento para a participação na assembléia cultual, onde não podiam participar os castrados, certamente pessoas que serviam nos santuários cananeus e  os bastardos,  isto é,  os filhos de casamentos  com estrangeiros. Os povos que podiam participar ou não dessas assembléias, provavelmente eram aqueles que estavam em relações amigáveis e hostis.
10-15
Javé está sempre aliado ao povo na luta contra os inimigos. Por isso, exigem-se algumas normas de higiene que adquirem caráter religioso.
16-17
O escravo estrangeiro podia refugiar-se em Israel. Um povo que foi libertado não submete outros à escravidão, mas permite que vivam livres no seu meio como irmãos.
18-19
A prostituição sagrada, praticada principalmente pelos cananeus, era um meio mágico de se unir com a divindade.
20-21
Num povo de irmãos, o empréstimo é partilha com o irmão necessitado, e não investimento para obter lucro. O estrangeiro aqui indica provavelmente uma pessoa ou grupo hostil, interessado em tirar proveito; nesse caso, as relações com ele serão diferentes.
22-24
A pessoa deve estar consciente do compromisso que assume espontaneamente com Deus.
25-26
Numa sociedade verdadeiramente fraterna e fundada na partilha, os bens necessários à vida não são propriedade de ninguém, quando está em jogo a sobrevivência. Isso, porém, não confere o direito de prejudicar o próximo.
24
1-4
Esta lei visa a restringir o abuso de casos de divórcio; para isso a necessidade de documentos e a proibição de novo casamento com a divorciada. O texto é resultado de uma mentalidade patriarcal: o homem é que toma todas as decisões, e quem fica contaminada é a mulher. Jesus anula completamente essa lei, libertando o matrimônio de uma visão legalista (cf. nota em Mc 10,1-12).
5
Cf. nota em 20,1-9. Aqui salienta-se o direito à formação do lar na intimidade e na alegria.
6
A penhora é uma forma de pressionar o pagamento de uma dívida. Não existe esse direito de tirar de uma família o necessário para a sua sobrevivência. O moinho caseiro era usado para fazer o pão de cada dia.
7
A vida humana não pode ser transformada em mercadoria. E a pessoa não pode ser usada como fonte de lucro, explorando sua força de trabalho ou o seus próprio ser.
8-9
Cf. notas em Lv 13-14. Sobre o episódio de Maria, cf. Nm 12,10-15.
10-13
O direito de cada um termina onde começa a necessidade do outro. No caso de penhores do credor não tem o direito de violar a intimidade do devedor, nem  de humilhá-lo: o devedor é que escolherá o que poderá dar como penhor. Sobre o manto do pobre, cf. nota em 24,6. Note-se bem: a bênção é dada pelo pobre; em outras palavras, só há justiça quando o pobre abençoa.
14-15
O salário é  uma forma de remuneração injusta porque, através da exploração da força de trabalho, o patrão tem sempre maiores lucros e o assalariado fica sempre mais empobrecido. Dentro desse conflito, a lei do Deuteronômio procura  conter a exploração do assalariado feita através da retenção do salário. Tal retenção significa o não pagamento do salário, ou também o pagamento de um salário que não possibilita ao trabalhador uma vida digna; e isto só se obtém quando ele participa de uma distribuição equitativa da renda (salário real). Mais uma vez o trabalhador pobre se torna juiz: é ele quem acusa o pecado.
16
Cada um é responsável por seus próprios atos. Esse princípio é uma inovação na legislação bíblica e será desenvolvido por Jr 31,29-30 e Ez 14,12-23; 18; 33,10-20.
17-18
O direito deve proteger e fazer justiça aos pobres e fracos, que não têm dinheiro nem poder para defender seus próprios direitos. A justiça para com os oprimidos é o sinal da aliança com o Deus libertador.
19-22
No ambiente agrário, o povo costumava deixar para trás alguma coisa como oferta para a divindade. O Deuteronômio transforma esse costume em gesto religioso-social: a oferta a Javé fica para os pobres.
25
1-3
Mesmo que se aplique uma punição justa, ninguém tem direito de humilhar o culpado, lesando-o fisicamente. A presença do juiz e o limite da punição são medidas para evitar arbitrariedades.
4
Costumava-se debulhar as espigas com a força de animais em peso sobre elas. Esta lei não se preocupa apenas com os animais, mas principalmente com os trabalhadores: eles têm o direito de aproveitar o produto do próprio trabalho.
5-10
Cf. nota em Gn 38,1-30. O Deuteronômio restringe esta obrigação somente ao irmão que mora junto.
11-12
Não se trata de defender o pudor, mas de respeitar a vida e a geração, que a mulher expõe ao perigo com esse gesto.
13-16
A lei mostra que a fraude no comércio é uma abominação para Javé, porque ele quer justiça nas relações econômicas. O comércio é uma das principais formas de explorar o pobre. Cf. notas em Am 8, 4-8 e Mq 6,9-16.
17-19
O texto se refere ao episódio de Ex 17,8-16. Segundo o Deuteronômio, os amalecitas violaram a moral do deserto. atacando pessoas cansadas e doentes. Aproveita-se dos fracos e indefesos é não temer a Deus. 
26
1-11
A  cada ano, as famílias realizam o seu ritual. Ao mesmo tempo reconhecem as promessa cumprida e, cheias de gratidão, fazem a oferta dos primeiros frutos da terra, recitando a grande profissão de fé. Trata-se de um “Credo histórico”,  isto é, uma fé que reconhece o Deus vivo presente e agindo na história do povo. O acontecimento fundante dessa história é o fato de que Javé se aliou a um grupo de escravos para o libertar e lhe dar uma terra, onde poderia organizar uma sociedade alternativa justa e fraterna. Portanto, a fé do povo de Deus é uma atitude eminentemente prática: é um compromisso com o Deus libertador que organiza o povo, tirando-o da escravidão e dando-lhe a vida. O final da celebração (VV. 10-11) é um grande banquete de confraternização, onde a partilha dos frutos da terra se faz num clima de festa: a maior alegria do povo é celebrar a fé no Deus libertador.
12-15
Sobre o dízimo trienal. cf. nota em 14,22-29. O verdadeiro culto que Javé quer é a justiça, que se torna concreta na partilha dos bens. Desse modo o culto se torna uma grande instrução, pois ensina o povo a formar uma sociedade onde todos tenham acesso aos bens da vida. O v. 14 supõe o culto a Baal, que morria depois da colheita e ressuscitava na primavera (luto, impureza e morte). Note-se que a oferta a Javé (o que estava consagrado) é recebida pelos deserdados; estes são o sacramento da presença do Deus libertador.
16-19
A verdadeira religião consiste em viver em aliança com o Deus do êxodo. A aliança é uma relação de compromisso mútuo. Javé se compromete a ser o Deus do povo, libertando e dando a vida, se o povo puser em prática a sua vontade. Por outro lado, o povo se compromete a ser reconhecido como povo próprio de Deus, se puser em prática a sua vontade. O centro da aliança, portanto, consiste em realizar a vontade de Javé: empenhar-se na luta pela libertação e vida de todos. Assim, o povo de Deus é reconhecido na história como povo sábio, em íntima comunhão com Deus (cf. 4,6-8).
27
1-10
As pedras gravadas com a lei deuteronômica (mandamentos e estatutos) serão o testemunho a  favor ou contra Israel. Elas comprovarão a fidelidade ou infidelidade do povo para com o Deus da aliança.
11-26
Temos aqui um texto antigo, que interrompe a seqüência do livro. Trata-se de uma lista de ações secretas, que dificilmente viriam a público para serem julgadas. Amaldiçoando a pessoa que comete, o texto obriga em consciência, com a aprovação popular (Amém = Assim seja).
28
1-14
As leis do Deuteronômio projetam e abrem perspectivas para a construção de uma sociedade alternativa, onde todos possam ter acesso à liberdade e à vida. Para que isso aconteça, é necessário o compromisso de pôr em prática toda essa legislação. Assim fazendo, o povo receberá as bênção, que significam vida, prosperidade, abundância, paz, e sobretudo o reconhecimento de que é um povo consagrado a Javé, o Deus vivo que gera liberdade e vida.
15-68
A infidelidade ao projeto de Javé, conforme é apresentado nas leis do Deuteronômio, acarretará para o povo as maldições. Estas significam perder a vida, a prosperidade, o fruto do trabalho, a saúde e finalmente a independência política.Os vv. 47-68 descrevem com pormenores uma situação de exílio. Talvez tenham sido escritos durante o exílio na Babilônia, depois da queda de Jerusalém em 586a.C.
28,69-29,7
O povo é convidado a rever a própria história a fim de compreender que Javé, o Deus libertador, está presente, e convida para uma aliança.
29
8-14
A aliança com Deus libertador engloba o povo todo, todas as categorias de pessoas, e permanece aberta às gerações futuras ("aquele que não está aqui conosco hoje"). Javé se torna o Deus de Israel, e Israel se torna o povo de Deus. A condição é por em prática toda a legislação do Deuteronômio ("pacto sob condição").
15-20
No momento da aliança, é relembrada a condição fundamental: abandonar os ídolos das nações, para servir unicamente a Javé, o Deus que gera liberdade e vida para todos. O maior desvio da aliança seria afirmar teoricamente o culto a Javé, e na vida prática servir a outros deuses.
21-27
A infidelidade à aliança trará infalivelmente a ruína de Israel. Cf. nota em 28,15-68.
28
As "coisas escondidas" são mistério de Deus e a maneira como ele dirige a história. A Bíblia não nos mostra o que Deus é em si, mas o que ele quer, ou seja: que a humanidade aprenda o caminho da justiça e construa uma relação social fraterna e igualitária. O Deuteronômio procura indicar o caminho para essa justiça. Nas não basta saber; é preciso praticar.
30
1-10
O texto é da época do exílio. A infidelidade causou as maldições anunciadas em 28,15-68. Tudo perdido? Não. Abre-se uma esperança: o povo deve meditar sobre a experiência histórica, converte-se novamente para Javé e obedecer-lhe radicalmente. Então o processo histórico mudará: o povo será novamente reunido, tomará posse na terra e terá um novo tempo de bênçãos
11-14
O Deuteronômio projeta o caminho de uma sociedade fraterna e igualitária: a justiça. O povo não pode desculpar-se perguntado: “O que devo fazer?”  O caminho já está ao seu alcance. Basta meditar nele, mudar a consciência e organizar a prática.
15-20
A vida e a morte, a felicidade e a desgraça dependem da opção histórica que o povo faz entre Javé, o Deus da liberdade e da vida, e os ídolos, que produzem escravidão e morte. O Deuteronômio primitivo termina com este apelo: "Escolha a vida... amando a Javé seu Deus... porque ele é a sua vida e o prolongamento de seus dias".
31
1-8
A designação de Josué como líder do povo já prepara a narração do livro de Josué. Note-se que as instruções dadas ao povo (v. 6) e a Josué (vv. 7-8) são as mesmas: o chefe não está acima de ninguém; sua função é ser mediador entre Deus e o povo.
9-13
A ,leitura periódica desse grande projeto de uma nova sociedade procura manter viva a consciência do ,projeto e sustentar a luta para realizá-lo. Note-se que o Deus teronômio todo é aprendizado do "temor de Javé" (v. 12, cf. nota em 8,6-20).
14-23.28-30
Estão juntos o lider do êxodo e o líder da instalação da terra prometida. O cântico de Moisés (cap. 32) é, na realidade, uma leitura da história na terra, mostrantdo a fidelidade de Javé e a infidelidade de  Israel.
24-27
A arca da aliança é o símbolo da presença de Javé. Colocado junto a arca, o Deuteronômio se tornará um testemunho contra o povo, se este não praticar a justiça aí ensinada (cf. 6,20).
32
1-4
Diante de toda a criação, começa o julgamento. A primeira parte apresenta quem é Javé: o único Deus digno de confiança ("Rocha"). Ele é a Justiça me o Direito, porque intervém na história para construir uma sociedade nova, a partir da libertação do pobre e do oprimido.
5-6
Israel é filho degenerado, porque abandonou Javé para seguir o caminho da injustiça. Através do êxodo e da aliança, Javé se tornou o pai e criador do povo, libertando-o da escravidão.
7-14
A história de Israel é uma longa série de benefícios que Javé fez por esse povo. De um grupo marginalizado entre as nações. Javé formou o seu povo próprio, libertando-o da escravidão ("terra deserta") e levando-o para a terra da vida ("terra fértil"). Israel deve sua história  a Javé, e não aos ídolos (v. 12).
15-18
Aos benefícios concedidos a Javé, Israel respondeu com infidelidade, abandonando a Javé para servir os falsos deuses. Quem abandona o Deus da justiça, doador de liberdade e vida, inevitavelmente começa a servir os deuses falsos da riqueza e do poder, que se alimentam de exploração e opressão.
19-25
Abandonado por Israel, Javé também o abandonará, e se servira de outro povo para puni-lo. Deixando o Deus da Justiça, Israel torna-se vítima das nações que servem os ídolos da injustiça ("povo falso").
26-33
Deus havia chamado uma nação estrangeira para julgar Israel. Mas a nação estrangeira não entendeu que devia ser apenas um instrumento de justiça de Javé, e acabou cometendo outra injustiça.
34-44
Deus intervém novamente para salvar o seu povo da opressão e, ao mesmo tempo, punir as nações. Estas, ao invés de se alimentarem a ser instrumentos de Deus, ao invés de se limitarem a ser instrumento de Deus, tornam-se opressoras. A injustiça paralisa o processo histórico num vaivém de contradições que impedem a realização da liberdade e da vida. E Deus intervém nesse processo para libertar e dar vida ao pobre we oprimido, abrindo a história para o futuro da justiça.
45-47
Cf. nota em 30,15-20.
48-52
Cf. nota em Nm 20,1-13.
33
O texto é um dos hinos mais antigos da Bíblia.  Na origem, era talvez um salmo dedicado às vitórias de Deus em benefício de Israel (vv. 2-5 e 26-29). O salmo foi dividido em partes, enfeixando uma série de ditos populares sobre cada tribo. O v. 5, provavelmente, é um testemunho histórico do que foi na realidade a aliança em Moab: um pacto militar entre as tribos, unidas na ideologia de Javé, Deus libertador, para invadir a área central de Canaã.
34
1-9
O mistério que cerca a morte e sepultura de Moisés parece ter finalidade bem clara: o povo não deve mitizar ou adorar a figura de seus líderes, mas assumir o processo de sua própria história.
10-12
O elogio a Moisés, o primeiro profeta de Israel, oferece o modelo de verdadeiro profeta e indica a atividade profética do povo de Deus. Essa atividade consiste em ler, na história presente e na sociedade, os apelos do Deus do êxodo. Ele quer libertar o povo e conduzi-lo na construção de uma história e sociedade novas, voltadas para a liberdade e a vida.

Daniel

3,51-90
Este cântico de louvor, também presente nos textos gregos, reúne trechos de salmos e convida a criação toda a um grandioso louvor. Provavelmente o cântico fez parte da liturgia na festa de libertação de Jerusalém e da consagração do Templo em 164 a.C..
7
9-14
O autor mostra o mistério que governa e julga a história: o Ancião é o próprio Deus, cercado por seus anjos, mediadores de sua ação na história. Os livros, onde são registrados a ações dos homens, são abertos: começa o julgamento. A fera julgada é a quarta, símbolo do império de Alexandre e, principalmente, de Antíoco IV. O misterioso filho de homem é uma personificação do povo fiel, que recebe de Deus o reino que durará para sempre. O Novo Testamento vê Jesus, o instaurador do Reino de Deus, como esse misterioso filho de homem que vem do céu.

11,40-12,4

O autor descortina o futuro onde o perseguidor será destruídos e as forças do mal serão vencidas. Na luta final, intervém Miguel, o anjo que protege o povo escolhido: são as forças celestes unido-se aos fiéis, que na terra lutam pela causa de Deus. A grande angústia inaugura o tempo da salvação: também os mártires que resistiram até o fim participarão da vitória finalk através da ressurreição, enquanto os infiéis se perderão definitivamente. É um dos textos mais claros do antigo testamento sobre a ressurreição.

Colossenses

1
3-8
A trilogia fé-amor-esperança define a vida cristã na sua base, na sua concretização prática e no seu dinamismo histórico. A vida cristã nasce dos compromisso de fé em Jesus Cristo, que significa aceitar a vida e ação de Jesus e continuá-las entre os homens. O amor é a realização prática desse testemunho, através da partilha dos bens e da fraternidade, que concretizam o Reino de Deus no dia-a-dia da história. A esperança é o dinamismo que nasce do amor, alimentando a vida cristã, voltada para o futuro do Reino de Deus, isto é, para a realização plena da vida.
13-20
Para animar os colossenses a permanecerem firmes na fé, Paulo cita um hino cristão, provavelmente usado na cerimônia batismal, que canta a grandeza de Cristo. Paulo se serve desse hino para criticar qualquer doutrina que apresente como necessárias outras mediações salvíficas, além da de Cristo. Cristo é o único mediador entre Deus e a criação, e só ele, mediante a cruz, é capaz de reconciliar Deus com as criaturas submetidas ao pecado.
24-29
Paulo se alegra porque o seu sofrimento confirma que ele está anunciando o verdadeiro Evangelho (cf. Mc 13, 5-10). O cerne da missão do Apóstolo é mistério do projeto de Deus: Deus quer que também os pagãos participem da redenção realizada mediante Cristo. A conversão dos colossenses, que antes eram pagãos, manifesta visivelmente esse projeto de Deus.

3
1-4:
Paulo não despreza as realidades terrestres. “Procurar as coisas do alto” significa descobrir a vida nova revelada em Jesus Cristo. O cristão já participa da vida que Jesus vive no mistério de Deus. Essa participação deve crescer e concretizar-se cada vez mais na história; quando Jesus estiver plenamente manifesto através do testemunho dos cristãos, então essa participação também se tornará completamente manifesta. Estes, conhecendo a vida de Cristo, são capazes de discernir e criticar tudo o que não conduz à plena realização humana.
5-17
Através do batismo, os cristãos passam por uma transformação radical: deixam de pertencer à velha humanidade corrompida (homem velho) e começam a pertencer à nova humanidade (homem novo), que é a criação realizada em Cristo, o novo Adão, imagem de Deus (1,15). Na comunidade cristã, semente da nova humanidade, não se admitem distinções de raça, religião, cultura ou classe social: todos são iguais e participam igualmente da vida de Cristo. A transformação é coisa prática: deixar as ações que visam egoisticamente aos próprios interesses, em troca de ações a serviço de reconciliação mútua e do bem comum.
3,18-4,1

Paulo aplica às relações humanas o princípio enunciado no v. 17: fazer tudo “em nome do Senhor Jesus”. Note-se que ele prega uma única moral a todos (homem, mulher, crianças, adultos, senhores e escravos): todos devem ser leais e respeitosos com os outros. Embora Paulo não se afaste do modo de pensar da sua época, sua proposta é um passo para que se reconheça a igualdade de direitos entre os homens e para que aconteçam importantes transformações sociais.

Atos dos Apóstolos

1
1-11
O “primeiro livro” é o Evangelho de Lucas.
Recebemos o mesmo Espírito que guiou toda a missão de Jesus, os apóstolos estarão preparados para testemunhar Jesus, continuando o  que ele começou a fazer e ensinar. Essa é a tarefa apostólica de todos os cristãos, que formam a comunidade de Jesus. Através do testemunho deles, Jesus ressuscitado continua presente e atuante dentro da história.
O Reino não vai surgir de um momento para outro na história, como por toque de mágica ou milagre. Ele será fruto do testemunho dado pelos discípulos no mundo inteiro. E só o Pai sabe o momento em que a história da humanidade estará completamente madura, para então se manifestar a plenitude do Reino.
A ascensão de Jesus é um modo de falar sobre a sua volta para o mistério da vida de Deus. Aliás, Deus está presente em todos os tempos e lugares. E o fato de os cristãos esperarem por Jesus não deve deixá-los passivos, mas levá-los a missão, pois a vinda gloriosa de Jesus se realizará através do testemunho.
2
1-13
O relato é simbólico. De fato, quando o autor escreveu, as comunidades cristãs já se haviam espalhado por todas as regiões aqui mencionadas. Lucas quer mostrar o que está na base de qualquer comunidade cristã: o Espírito Santo faz lembrar, compreender e continuar o testemunho de Jesus (cf. Jo 14,26; 16,12-15). Pentecostes celebrado cinqüenta dias depois da Páscoa, comemorava a Aliança e o dom da Lei. No novo Pentecostes, Deus entrega o seu Espírito, realizando a nova Aliança, dessa vez com toda a humanidade (doze nações). A “língua” da comunidade da nova Aliança é o testemunho de Jesus, ou seja, o Evangelho, cujo centro é o amor de Deus que reúne os homens, provocando relação e entendimento (o contrário de Babel: cf. Gn 11,1-9). Mas o testemunho provoca conflitos (v. 13).
14-36
Pedro apresenta o anúncio fundamental da Igreja. Mantendo a memória do testemunho de Jesus, a Igreja relê o Antigo Testamento e percebe o mistério central da vida, morte e ressurreição de Jesus: Jesus de Nazaré realizou entre os homens a ação de Deus voltada para a justiça e a vida, e foi morto pêra estrutura injusta de uma sociedade que gera a morte. Deus, porém, condena essa estrutura, pois ressuscita Jesus e o torna Senhor do universo e da história. Recebendo o Espírito que dirigiu toda a missão de Jesus, a Igreja se torna testemunha da sua ressurreição. O anúncio é ao mesmo tempo a denúncia e o julgamento de toda a estrutura injusta, sempre causadora da morte.
37-41
O anúncio da Igreja faz com que as pessoas tomem consciência do seu próprio pecado,  já que elas percebem estar comprometidas com uma estrutura social que gera injustiça e morte. O que fazer? É preciso morrer para esse tipo de sociedade e ressuscitar para pertencer ao povo de Deus; povo comprometido com o testemunho de Jesus Cristo. O batismo, onde a pessoa recebe o Espírito, é a expressão concreta dessa conversão.
42-47
Lucas apresenta o primeiro retrato da comunidade cristã. Ela nasce do anuncio fundamental que provoca a conversão; cresce graças a catequese evangélica (ensinamento dos apóstolos) e se espalha através do testemunho. Internamente a comunidade se mantém pela união com Deus (Oração no Templo) e pela participação na Páscoa de Jesus (fração do pão = Eucaristia). Na vida prática, a conversão se exprime por um novo modelo de relações: a fraternidade substitui a opressão do poder, e a partilha dos bens supera a exploração do comércio. A única autoridade é a de Deus, e se exprime através de prodígios e sinais que acompanham o testemunho dos apóstolos (temor). Para Lucas, a vida dessa comunidade mostra o sinal da Igreja e o projeto de nova sociedade.
3
11-26
O povo estranha o fato novo que a comunidade cristã realiza em nome de Jesus. O fato se transforma em anúncio fundamental, convidando à conversão. O centro do texto é o nome de Jesus. Quem é Jesus? A releitura do Antigo Testamento leva a comunidade a reconhecer e anunciar Jesus como o Santo, o Justo, o Profeta definitivo e o Servo-Messias, que vai  transformar radicalmente a condição humana, realizando o projeto de Deus e restaurando todas as coisas. Doravante, a ação de Deus em favor dos homens se realiza mediante  o nome de Jesus.
4
1-22
O fato novo provoca uma nova consciência no povo e, ao mesmo tempo, a reação negativa do Sinédrio, autoridade suprema na sociedade judaica. A ressurreição de Jesus apresentada como fato a partir de outro fato: a cura do aleijado. O Sinédrio não pode negar aquilo que todos conhecem. Também não podem aceitar que a cura foi realizada em nome de Jesus, que tinha sido condenado e morto por iniciativa do próprio Sinédrio; este não pode aceitar que Jesus esteja vivo e continue fazendo o bem. Mas, como não há outro modo de explicar a cura e se teme a opinião pública, resta apenas uma atitude: reprimir os apóstolos, proibindo-os de continuar uma prática ligada ao nome de Jesus.
32-37
Lucas vai salientando o crescimento da comunidade (cf. 1,13. 15; 2,41.48; 4,4). Agora já é uma grande multidão, pois o fermento  cristão penetra e transforma a sociedade. O  centro do retrato é o espírito de comunhão que gera concórdia fraterna e partilha dos bens. Não se decreta uma lei para fazer uma “caixa comum”, uma espécie de “capital” de sociedade anônima. Pelo contrário, trata-se de partilha livre e consciente, exigida pela necessidade de um e voltada para os mais necessitados, de modo a destruir o contraste e a distância entre ricos e pobres. O exemplo de Barnabé mostra que a comunidade primitiva rompe com o espírito de posse e propriedade privada: os bens são destinados ao uso de todos.
5
12-16
O terceiro retrato mostra como a ação de Jesus ressuscitado continua na prática da comunidade cristã. Esta realiza a ação que liberta da alienação a consciência ("espíritos maus"). Consequentemente, liberta os corpos oprimidos (doenças). A sombra de Pedro relembra a própria ação de Deus protegendo o povo no tempo do Êxodo. Favorecido, o povo acolhe e adere à ação da comunidade; "outros" (v. 13) temem o poder das autoridades e não se atrevem a pertencer a esse grupo inovador.
21b-33
As autoridades se reúnem para decidir sobre a sorte dos apóstolos. Enquanto isso, estes ensinam o povo, que já está disposto a tomar uma atitude contra os poderosos. Apesar da proibição (cf. 4,18), os apóstolos continuam ensinando em nome de Jesus. Interrogado, Pedro mostra a razão da desobediência: Ressuscitando a Jesus, Deus julga e desautoriza a autoridade do Sinédrio, que o condenou e matou. A ressurreição é o fundamento da liberdade de testemunhar.
34-42:
Para as autoridades, o fenômeno cristão é movimento de insurreição política, como qualquer outro. Gamaliel apresenta o significado profundo do confronto com o movimento cristão. Por trás do princípio de tolerância e também de liberdade, mais acima afirmada por Pedro (4,19s), está em jogo uma opção radical: obedecer a Deus ou aos homens; adotar a lógica de Deus na liberdade que provém da vitória sobre a morte, ou obedecer a lógica humana, que tem como fundamento o medo da morte e que se firma no poder repressivo que provoca tortura e morte. Mas, o cristianismo vem de Deus, ninguém poderá detê-lo...
8
5-8
O autor apresenta Filipe como exemplo da evangelização que se propaga a partir de Jerusalém. A missão cristã é mostrada nos mesmos moldes previstos pelo Evangelho: anúncio do caminho de Jesus Cristo e ação que desaliena  os homens (expulsão dos demônios), possibilitando que eles se tornem responsáveis pela própria caminhada (cura da paralisia). O resultado é a alegria trazida pela Boa Notícia.
9-25
Simão é alguém que busca prestígio a todo custo, recorrendo a venda de ilusões que fascinam e alienam o povo. Enquanto outros buscam o batismo para selar a conversão, Simão está interessado em milagres e em comercializar o dom de Deus. Reprovando-o, Pedro lembra a sena de Jesus expulsando os comerciantes do Templo (cf. Lc 19,45ss). O O texto é verdadeira condenação de qualquer comércio do sagrado. O que Deus dá gratuitamente, deve ser distribuído gratuitamente.
A missão de Pedro e João na Samaria é reconhecer a nova comunidade como parte integrante da Igreja. A imposição das mãos com o dom do espírito Santo mostra que as comunidades cristãs nascem sob o impulso do Espírito Santo.
9
26-30
O convertido enfrenta, além disso a desconfiança da comunidade, à qual começa a pertencer. Mas alguém da comunidade apresenta um argumento irrefutável e que cria solidariedade para com o recém-convertido: o testemunho corajoso.
10
1-33
Cesaréia está na fronteira da terra judaica com o mundo pagão. Fronteira que, na verdade, separa mundos e mentalidades. O judeu era limitado por dois grandes tabus culturais: a lei da pureza, que impedia comer certos alimentos (cf. Lv 11), como também a lei que proibia misturar-se com pagãos, igualmente considerados profanos e impuros (v. 28). Temos aqui a queda desses tabus; se fossem conservados, impediriam a Igreja, nascida em ambiente judaico, de se expandi pelo mundo pagão. O próprio Deus destrói a barreira entre os homens,  porque ele quer unir todos no único povo de seu Filho (VV. 34-35). A Igreja, portanto, deve distinguir entre o que é essência do Evangelho e o que permanece destinado tempo ou cultura. Uma ação missionária que confundisse o Evangelho com particularismos culturais não seria evangelização libertadora, mas colonização dominadora.
34-43
O texto reflete a essência da catequese primitiva. Na estrutura dessa catequese podemos ver a estrutura dos atuais evangelhos escritos; estes não são mais do que cristalização da catequese realizada em comunidades particulares.
O ponto de partida da evangelização de da catequese é o reconhecimento de que o povo de Deus é formado por todos aqueles que o respeitam e praticam sua vontade, ainda que de forma inconsciente e anônima. É essa prática da justiça que a evangelização visa descobrir, fazer crescer e educar, mostrando tudo o que Deus realizou em favor dos homens através de Jesus Cristo. Note-se que toda a atividade de Jesus está resumida numa frase que define o programa da ação cristã: fazer o bem e curar todos aqueles que estão dominados pelo diabo. Em outras palavras, trata-se de despertar relações justas entre os homens, a fim de que eles vençam a alienação e construam uma sociedade voltada para a vida que Deus quer.
44-48
Este é o pentecostes dos pagãos (cf. At 2,1-12). Note-se que os pagãos recebem o Espírito ao ouvir a Palavra; isso comprova que eles já aceitaram e se comprometeram com o Evangelho. A ação de Deus procede do próprio rito do batismo, que é sinal visível da pertença ao povo de Jesus Cristo.
12
1-25
O episódio apresenta o ápice e final da missão de Pedro no livro dos Atos. Marca também o fim da 1ª etapa da história da Igreja centralizada em Jerusalém e no mundo judaico. A intenção de Herodes é matar Pedro,  como fez com Tiago. O relato lembra de perto a morte e ressurreição de Jesus. A incredulidade dos irmãos (v. 15) lembra Lc 24,9-11. Os guardas sofrem a pena reservada ao prisioneiro que deixaram escapar; e a morte de Herodes aparece como punição divina, pelo fato de ele se absolutizar, colocando-se no lugar de Deus. O relato mostra, portanto, que Deus se solidariza com os pobres que lhe são fiéis, e se coloca contra o perseguidor. É nesse clima de solidariedade divina que as comunidades crescem e se multiplicam (v.24).
13
44-52
Os missionários cristãos estão entre dois grupos: os pagãos, que os acolhem com entusiasmo e alegria, e os judeus, que têm ciúmes, os recusam e reagem com violência. É um momento histórico para o cristianismo: a passagem do mundo judaico para o mundo dos pagãos. E a espada de dois gumes que divide os grupos não é mais a Lei, mas a Palavra de Deus, isto é, o anúncio da salvação; este exige ser acolhido para que possa introduzir os homens na vida inaugurada por Jesus ressuscitado. A experiência cristã não é apenas uma variante reformista do judaísmo.
15
1-5
Enraizado no ambiente judaico e pagão, a Igreja enfrenta o primeiro grande conflito. Os pagãos provenientes do judaísmo continuavam praticando a circuncisão e observando as prescrições da Lei. A evangelização não obrigava os pagãos convertidos a esses costumes judaicos. Contudo, alguns de Jerusalém (fariseus convertidos – cf. v.5) começaram a ensinar que também os pagãos, para se salvarem, deviam observar as mesmas coisas que os judeus convertidos. Em outras palavras, primeiro deviam ser “judaizados” e depois cristianizados. A questão era muito séria: os costumes judaicos pertencem á essência da  mensagem cristã? Até que ponto a ação missionária da Igreja transmite o Evangelho com determinado contexto sociocultural, impondo a um povo cosmovisão  de outro? O Evangelho é fermento libertador, e não super-estrutura que aprisiona e perverte a alma de um povo.
22-29
A carta conciliar não tem caráter dogmático; é apenas uma orientação pastoral. Quantos às restrições do v. 29, cf. nota anterior.
22
1-21
Com pequena diferença de pormenor, encontramos em Atos três relatos da conversão de Paulo (aqui em 9,1-9 e em 26,12-23). A insistência no fato se deve a três razões: mostrar que um judeu fiel, intruído e até fanático descobriu Jesus como o Messias prometido, e se converteu; mostrar que Paulo é apóstolo como os Doze, pois também ele teve experiência direta do Senhor ressuscitado; justificar a missão de Paulo junto aos pagãos. O que há de especial no presente relato e a menção de que a missão de Paulo entre os pagãos foi recebida no próprio Templo. Paulo responde assim aos judeus que o acusam de profanar o Templo, introduzindo aí um pagão.

Apocalípse

1
4-8
O número sete é simbólico e indica totalidade, plenitude. João se dirige a toda a Igreja, representada pelas comunidades da Ásia.
Deus Pai é o Senhor da história e agirá no futuro. Sete Espíritos, isto é, a plenitude do Espírito de Deus.
Jesus é o centro do projeto e ação de Deus. A glória e o poder lhe pertencem, porque: - ele é a testemunha fiel, que revelou e realizou o projeto do Pai até o fim, dando a vida por amor aos homens; - ele é o Primeiro a ressuscitar dos mortos, vencendo assim a morte e o pecado, e tornou-se início de uma nova humanidade; - ele é o Chefe dos reis da terra, pois está acima de todos os poderosos e reúne os homens, para fazer deles um Reino, onde todos são sacerdotes da aliança com Deus Pai. O v. 7 mostra que Jesus vem para julgar e implantar o Reino.
9-11
Esta primeira visão é o motor de tudo o que virá a seguir.
A situação de João mostra que os cristãos, por darem testemunho, sofrem perseguição (tribulação), mas já participam da vitória do Ressuscitado (realeza) e, por isso, perseveram na fé e no testemunho.
No domingo (dia do ?Senhor), as comunidades celebram a ressurreição de Jesus, com a qual inicia na história o julgamento e a instauração do Reino, que trazem justiça e vida para os homens.
12-16
João vê Jesus presente e agindo dentro da vida das comunidades (candelabros, cf. v. 20), que irradiam para todo o mundo a presença de /cristo ressuscitado. Ele é o Filho do Homem, o enviado de Deus para realizar o julgamento e instaurar o Reino (cf. Dn 7,13). Jesus é o único mediador entre Deus e as comunidades: é sacerdote (túnica), rei (cinto de ouro), divino (cabelos brancos), tem a ciência de Deus para penetrar tudo (olhos de fogo), é firme (pés de bronze) e poderoso (voz como as águas). As sete estrelas são os chefes (anjos) das comunidades, a espada com dois cortes é o Evangelho que julga a igreja e o mundo. O rosto brilhante como sol relembra a transfiguração (cf. Mt 17,2).
17-20
João personifica as comunidades com medo das perseguições (como morto). Mas o Ressuscitado, presente na Igreja, traz tranquilidade e segurança, porque é o Senhor da história (Primeiro e Último) e o Senhor da vida (tem as chaves da morte e da morada dos mortos).
A missão de João é escrever o livro do apocalipse para toda a Igreja. As coisas presentes são as sete cartas para as igrejas, convidando-as à conversão(caps. 2-3); as coisas que devem acontecer depois delas estão na segunda parte do livro, mostrando o testemunho da Igreja no mundo (caps. 4-22).

5
8-14
Quando o Cordeiro recebe o livro, ouvem-se três grandes louvores. O primeiro é da criação e do povo de Deus, mostrando que o Cordeiro pode receber o livro. O segundo é dos anjos, atribuindo a Jesus todas as qualidades possíveis; pois o Senhor da história é somente Jesus, e não os poderes que se absolutizam. O terceiro é de todas as criaturas, que reconhecem Deus e o Cordeiro no mesmo plano. O povo de Deus adora somente a Deus e a Jesus Cristo, e não os homens nem as coisas.
7
1-9
O aspecto positivo do grande Dia é a salvação. O povo de Deus (doze tribos) é protegido no julgamento (os Anjos seguram os quatro ventos). A marca na fronte é o sinal da salvação e da pertença a Deus. O povo de Deus é apresentado como o Israel total e perfeito (12 x 12 x 1.000 = 144.000). é um povo incontável (v. 9), porque a salvação está aberta para todos os homens (gente de todas as nações, tribos, povos e línguas).
9-12
O povo de Deus reconhece que a salvação vem de Deus e do Cordeiro. Não são as coisas e nem os homens absolutizados que salvam. Unido aos anjos e à criação, o povo de Deus adora a Deus e reconhece que a plenitude do louvor pertence somente a Deus.
13-17
João enfatiza a salvação do povo de Deus. A grande tribulação são as perseguições. A veste branca significa a participação no testemunho de Jesus. Os vv. 15-17 lembram a festa das Tendas, que era um sinal da Aliança. A salvação é a realização da Aliança: a morada de Deus com os homens. Com a realização futura da aliança não haverá mais limitações nem sofrimentos: Jesus será o pastor que leva o povo a viver em plenitude.

11
15-19
Com a sétima trombeta realiza-se o mistério de Deus (10,7): a vida do Reino através do testemunho profético do povo de Deus (11,1-13). O povo de Deus (vinte e quatro anciãos) proclama o Deus Todo-poderoso, que reina e realiza a justiça. Não se fala mais do Deus “que-vem”, porque ele já veio no testemunho de Jesus e dos seus seguidores.
A arca é o sinal da aliança e indica a presença de Deus no meio do povo. A aliança se realiza através do testemunho profético do povo de Deus.
12
1-2
A Mulher é um símbolo cheio de significados: é Eva, a mãe da humanidade (cf. Gn 3,15-20); também o povo de Israel (doze estrelas = doze tribos) assim como Sião, o resto do povo de Deus que espera o Messias (Is 66,7). É Maria também enquanto mãe de Jesus e mãe dos discípulos de Jesus (Jo 19,25-27), e o povo de Deus da nova Aliança (doze estrelas = doze apóstolos).
3-4
O Dragão personifica o mal, inimigo de Deus. Trata-se do egoísmo, orgulho e auto-suficiência que deformam os indivíduos e os grupos sociais. Ele é sanguinário (vermelho), tem pleno poder sobre os impérios do mundo (sete cabeças e sete diademas), mas sua força é relativa e imperfeita (dez chifres). Ele tem a pretensão de lutar contra Deus (estrelas do céu). Quer devorar o Filho da Mulher, o Messias que veio para destruí-lo.
5-6
O filho é Jesus que nasce (ressurreição)  para a glória e para dominar  as nações, destruindo o poder do Dragão. O mal foi derrotado. Agora a situação do povo de Deus é como a dos hebreus no deserto, libertados da escravidão: viverá no deserto até o fim da história (mil, duzentos e sessenta dias), em meio a perseguições e na intimidade com Deus.
7-12
O mal foi cortado pela raiz. Miguel (= Quem é como Deus?) vence e expulsa o Dragão, o mal que sempre ameaçou a humanidade (Serpente, Diabo, Satanás). Mas os cristãos não podem ficar acomodados, porque o mal continua agindo no mundo e, agonizante, ainda via perseguir os homens de todos os modos.
21
9-11
João agora apresenta a nova humanidade como cidade perfeita e deslumbrante. Esta imagem mostra a beleza e santidade da Aliança com Deus. A humanidade é a esposa, o reverso da prostituta. João a apresenta com traços da antiga Babilônia histórica: quadrada, atravessada por uma avenida ao longo do rio, e com jardins. Sugere, assim, que a Jerusalém celeste é a Babilônia, prostituta purificada e transformada pelo Evangelho. Agora, ela reflete a glória de Deus, que nela está presente.
12-17
As formas e medidas são perfeitas: muralhas com cento e quarenta e quatro côvados (doze x doze), doze portas com os nomes das doze tribos, doze alicerces com os nomes dos doze apóstolos. Ela é quadrada e cúbica, como o Santo dos santos no Templo. Sua perfeição é imaginável (doze mil). Ela é uma cidade universal, aberta para toda a humanidade (portas voltadas para os quatros pontos cardeais).
22-23
Deus está presente nessa humanidade. Não é preciso mais nenhum meio para ligá-la com Deus: nem Templo, nem liturgia, nem sacerdócio. É o momento do face a face. Conseqüentemente, também não existem outras medições: política, economia, propaganda, comércio, etc. A comunhão com Deus leva a comunhão total dos homens entre si.


Amós

6
1-7
A classe dominante de Israel se mantém numa vida de privilégios,  às custas da exploração do povo (da “ruína de José”). Todavia, o profeta assegura que isso tudo terá um fim, pois o dia fatal se aproxima.
7
10-17
Ouvindo Amós denunciar o santuário do rei, Amasias, o sacerdote responsável,  percebe que o profeta está ameaçando a ordem estabelecida. Pouco lhe importando se a crítica e condenação vem da parte de Deus ou não, Amasias procura abafar a subversão, mandando que Amós se retire do país. E Amós lhe responde que não pertence aos grupos proféticos que vivem subordinados às autoridades e que profetizam de acordo com o interesse dos grandes. Pelo contrário, ele era um simples criador de gado; se agora está profetizando, é por ordem do próprio Javé e unicamente a ele deve obedecer. A seguir, diz que o próprio sacerdote Amasias será testemunha do castigo anunciado.
8
4-8
Agora os comerciantes são duramente criticados: também eles se enriquecem graças a fraude e à exploração sistemática contra os pobres. Esses ricaços frequentam o santuário e não faltam festas religiosas; porém, mesmo quando estamos rezando, ficam a maquinar o que poderão fazer para ter mais lucro.


quinta-feira, 26 de novembro de 2015

Evangelho segundo Lucas

1
1-4
O evangelho de Lucas nasce de uma pesquisa, destinada a escrever ordenadamente o que a Igreja primitiva transmitia através da catequese.
5-25
A esterilidade e velhice mascam a vida desse casal justo, e o tornam objeto de humilhação pública. Zacarias e Izabel representam a comunidade dos pobres e oprimidos, que dependem de Deus. Deus se volta para esses pobres: deles nascerá João, o último profeta da antiga Aliança. João abrirá o caminho para a chegada do Messias, que iniciará a história da libertação dos pobres (cf. nota em Ml 3,22-24).
26-38
Maria é outra representante da comunidade dos pobres que espera pela libertação. Dela nasce Jesus Messias, o Filho de Deus. O fato de Maria conceber sem ainda está morando com José indica que o nascimento do Messias é obra da intervenção de Deus. Aquele que vai iniciar nova história surge dentro da história de maneira totalmente nova.
39-45
Ainda no seio de sua mãe, João Batista recebe o Espírito prometido (1,15). Reconhece o Messias e o aponta através da exclamação de sua mãe Isabel.
46-56:
O cântico de Maria é o cântico dos pobres que reconhecem a vinda de Deus para libertá-los através de Jesus. Cumprindo a promessa, Deus assume o partido dos pobres, e realiza uma transformação na história, invertendo a ordem social: os ricos e poderosos são depostos e despojados, e os pobres e oprimidos são libertos e assumem a direção dessa nova história.
57-66
O nome de João (= Deus tem piedade) é o sinal que evidencia o projeto de Deus sobre a criação e sua missão.
67-80
O cântico de Zacarias é um louvor ao Deus misericordioso que realiza, através de Jesus, a "visita" aos pobres. Em Jesus se manifesta a força que liberta dos inimigos e do medo, formando um povo santo diante de Deus e justo diante dos homens. Desse modo, manifesta-se a luz que ilumina a condição do povo, abrindo uma história nova, que se encaminha para a Paz, isto é, a plenitude da vida.
2
1-7
O recenseamento ordenado pelo imperador era instrumento de dominação, já que possibilitava saber quantas pessoas deviam pagar o tributo. Dentro dessa situação de dominação nasce Jesus, o Messias, que desde o primeiro instante de sua vida se identifica com os pobres.
8-20
Os primeiros a receber a Boa Notícia (Evangelho) são os pobres e marginalizados, aqui representados pelos pastores. Com efeito, na sociedade da época, os pastores eram desprezados, porque não tinham possibilidade de cumprir todas as exigências da Lei. É para eles que nasceu o Salvador, o Messias e o Senhor. E são os primeiros a anunciar a sua chegada. Jesus é o Salvador, porque traz a libertação definitiva. É o Messias, porque traz o Espírito de Deus, que convoca os homens para uma relação de justiça e amor fraterno (cf. Is 11,1-9). É o Senhor, porque vence todos os obstáculos, conduzindo os homens dentro de uma história nova.
21-24
Todo primogênito pertencia a Deus, e devia ser resgatado por meio de um sacrifício. Nessa ocasião também se fazia a purificação da mãe, e se oferecia um cordeiro. Quem era pobre podia oferecer duas rolas ou dois pombinhos, em lugar do cordeiro (cf. Lv. 5,1-8). O Messias nasce como dominado, em lugar pobre e vem pobre, para os pobres.
25-40
Simeão e Ana também representam os pobres que esperam a libertação. E Deus responde a esperança deles. O cântico de Simeão relembra a vida e Missão do Messias: Jesus será sinal de contradição, isto é, julgamento para os ricos e poderosos, e libertação para os pobres e oprimidos (cf. Lc 6,20-26).
41-52
Neste Evangelho, as primeiras palavras de Jesus mostram que toda a sua missão decorre da sua relação filial com o Pai. Isto significa que essa missão de Deus e da realização de sua vontade entre os homens. Contudo, ela se processa dentro do mistério da Encarnação, onde Jesus vai aprendendo a viver a vida humana como qualquer outro homem.
3
1-20
A datação histórica (VV. 1-2) mostra que Lucas coloca os reis terrestres e as autoridades religiosas em contraste com a soberania e a autoridade de Jesus: o movimento profundo da história não se desenvolve no plano das aparências da história oficial. É Jesus quem realiza o destino do mundo, dando à história o verdadeiro sentido.
João Batista convida todos à mudança radical de vida, porque a nova história vai transformar pela raiz as relações entre os homens. É o tempo do julgamento, e nada vale ter fé teórica, pois o julgamento se baseia sobre as opções e atitudes concretas que cada um assume.
21-22
Para Lucas, o batismo de Jesus é um episódio em meio ao batismo de todo o povo. Solidarizando-se com o povo, Jesus começa o tempo do batismo no Espírito, isto é, a formação do povo de Deus que vai construir a nova história. Cf. também nota em Mc 1,9-11.
23-38
Salientando que Jesus é descendente de Adão, Lucas o apresenta como princípio de vida para todos os homens. Isso é frisado também pelo número de gerações (setenta e sete), que é número simbólico,indicando a universalidade: a ação de Jesus vai atingir toda a humanidade. 
4
1-13
Cf. nota em Mc 1,12-13 e em Mt 4,1-11. Lucas inverte a ordem das duas últimas tentações, porque em Jerusalém (Templo) é que acontecerá a suprema tentação e a vitória final sobre ela.
14-21
Colocada no início da vida pública de Jesus, esta passagem constitui, conforme Lucas, o programa de toda a atividade de Jesus. Is 61,1-2 anunciará o que o Messias iria realizar a missão libertadora dos pobres e oprimidos. Jesus aplica a passagem a si mesmo, assumindo-a no hoje concreto em que se encontra. No ano da graça eram perdoadas todas as dívidas e se redistribuíam  fraternalmente todas as terras e propriedades: Jesus encaminha a humanidade para uma situação de reconciliação e partilha, que tornam possíveis a igualdade, a fraternidade e a comunhão.
22-30
A dúvida e a rejeição de Jesus por parte de seus compatriotas fazem prever a hostilidade e a rejeição de toda a atividade de Jesus por parte de todo o seu povo. No entanto, Jesus prossegue o seu caminho, para construir a nova história que engloba toda a humanidade.
31-37: Cf. nota em Mc 1,21-38.
38-41: Cf. nota em Mc 1,29-34.
42-44:
A boa Notícia do Reino é o amor de Deus que provoca a transformação radical das estruturas que escravizam os homens. Para anunciá-la, Jesus vai ao encontro daqueles que ainda não a conhecem.
5
1-11
A cena é simbólica. Jesus chama seus discípulos, mostrando-lhes qual a missão reservada a eles: fazer que os homens participem da libertação trazida por Jesus e que só pode realizar-se no seguimento dele, mediante a união com ele e a sua missão. O convite ao seguimento é exigente: é preciso “deixar tudo”, para que nada impeça o discípulo de anunciar a Boa Notícia do Reino.
12-16:
Cf. nota em a Mt 8,1-4. Enquanto o leproso curado testemunha a ação de Jesus, este se retira para refontizar a sua missão em Deus Pai, e assim continuar a sua obra.
17-26: Cf. nota em Mc 2,1-12.
27-32: Cf. nota em Mc 2, 13-17.
33-39: Cf. nota em Mc 2, 18-22. Lucas salienta que quem está habituado às estruturas do velho sistema, e não se predispõe à mudança, jamais aceita a novidade trazida por Jesus. (v. 39).

6
1-5:
Sendo senhor do sábado, Jesus está acima das leis, mesmo religiosas, que os homens elaboram. Ele relativiza essas leis, mostrando que elas não têm sentido quando impedem o homem de ter acesso aos bens necessários para a própria sobrevivência.
6-11:
Jesus mostra que a lei do sábado deve ser interpretada como libertação e vida para o homem. Por isso, os que preferem ficar com o velho sistema se reúnem para planejar a morte de Jesus: ele está destruindo as idéias de religião e sociedade que eles tinham.
12-16:
Jesus escolhe os doze apóstolos, que formarão o núcleo da comunidade nova que ele veio criar. A palavra apóstolo significa aquele que Jesus envia para continuar a sua obra.
17-26:
O povo vem de todas as partes ao encontro de Jesus, porque a ação dele faz nascer a esperança de uma sociedade nova, libertada da alienação e dos males que afligem os homens.
27-36:
A vida em sociedade é feita de relacionamentos de interesses e reciprocidade, que geram lucro, poder e prestígio. O Evangelho revoluciona o campo das relações humanas, mostrando que, numa sociedade justa e fraterna, as relações devem ser gratuitas, à semelhança do amor misericordioso do Pai.
37-42:
Cf. nota em Mt 7,1-5. Lucas salienta que as relações numa sociedade nova não devem ser de julgamento e condenação, mas de perdão e dom. Só Deus pode julgar.
43-45:
Assim como as árvores são conhecidas pelos frutos, do mesmo modo os homens são conhecidos pelos seus atos.
46-49:
Quem põe em prática a mensagem de Jesus, constrói a vida pessoal e comunitária sobre alicerce firme, que resiste a alienação, aos conflitos e até mesmo à perseguição. Quem fica somente no ouvir e no falar, jamais colabora com a construção da nova sociedade.
7
1-10:
O oficial era "temente a Deus", isto é, simpatizante aos aos seus quadros religiosos. Muitas vezes pode-se encontrar mais fé em pessoas que não pertencem a uma instituição religiosa do que entre aquelas que dela fazem parte.
11-17:
A atividade libertadora de Jesus é a grande "visita" de Deus que vem salvar o seu povo. Essa visita é a manifestação do amor compassivo, que atende aos mais pobres e necessitados.
18-23: Cf. nota em Mt 11,1-6.
24-30:
Nenhum homem do Antigo Testamento é maior do que João Batista. Entretanto, João pertence ao Antigo Testamento, onde as profecias são anunciadas, e não ao Novo Testamento, onde as profecias são anunciadas, e não ao Novo Testamento, onde as profecias já se realizaram.O povo e os cobradores de impostos acolheram. O povo e os cobradores de impostos acolheram a pregação de João Batista (3,10-14), acreditando que, com Jesus, iria surgir uma nova sociedade. As autoridades, convencidas de que não precisavam mudar de vida, foram postas fora do plano de Deus.
9
18-27
Não basta declarar e aceitar que Jesus é o Messias; é preciso rever a idéia a respeito do Messias, o qual, para construir a anova história, enfrenta os que não querem transformações.  Poe isso, ele vai sofrer, ser rejeitado e morto. Sua ressurreição será a sua vitória. E quem quiser acompanhar Jesus na sua ação messiânica e participar da sua vitória, terá que percorrer caminho semelhante: renunciar a se mesmo e às glórias do poder e da riqueza.
28-36
Lucas apresenta Jesus rezando continuamente (5,16; 6,12; 9,18). Com isso o evangelista mostra que Jesus, através de sua palavra e ação, está realizando a vontade do Pai. Na transfiguração aparece claramente esse sentido da oração (v. 35). E a vontade do Pai é que Jesus realize o êxodo (v. 31), isto é, que ele realize, mediante sua morte, ressurreição e ascensão ,  o ato supremo de libertação do povo, acabando com a opressão exercida pelo sistema implantado em Jerusalém.
51-56
Jesus inicia o seu caminho para Jerusalém (cf Introdução). Nessa viagem , Lucas mostra a pedagogia de Jesus, que vai indicando o caminho para aqueles que querem unir-se a ele. Tal processo por ele iniciado vai provocar sérios conflitos com aqueles que não querem mudar o rumo da história. Por enquanto, nem os samaritanos entendem que Jesus vai a Jerusalém para salvá-los. E os discípulos não imaginam que a Samaria será um dos primeiros lugares que eles evangelizarão ao saírem de Jerusalém (At 1,8).
10
1-16
Os discípulos são organizados por Jesus para anunciarem a Boa Notícia no caminho e começarem a realizar os atos que concretizam o Reino. Aqueles que não quiserem  aderir à  Boa Notícia ficarão fora da nova história.
17-20
Os milagres realizados são motivo de alegria para os discípulos que retornam. No entanto, Jesus mostra que são apenas sinais de uma libertação muito mais ampla, que ameaça o domínio de Satanás. A verdadeira alegria dos discípulos é saber que a novidade do Reino está surgindo, e que eles estão participando dela.
25-37
O primeiro a colocar obstáculos  no caminho de Jesus é um teólogo. Este sabe que o amor total de Deus e ao próximo é que leva à vida. Mas, não basta saber. É preciso amar concretamente. A parábola do samaritano mostra que o próximo é quem se aproxima do outro para lhe dar uma resposta às necessidades. Nessa tarefa prática, o amor não leva em conta barreiras de raça, religião, nação ou classe social. O próximo é aquele que eu encontro no meu caminho. O legista estabelecia limites para o amor: “Quem é o meu próximo?  Jesus muda a pergunta: “O que você faz para se tornar próximo do outro?”
38-42
Mais importante do que fazer as coisas, é fazê-las de modo novo. Para isso, é preciso ouvir a palavra de Jesus, que mostra o que fazer e como fazer.
11
29-32
Não é um sinal maravilhoso que leva os homens à conversão, e sim a adesão ao projeto da nova história, manifestado na palavra de Jesus.
12
13-21
No caminho da vida, o homem depara com o problema das riquezas. Jesus mostra que é idiotice acumular bens para assegurar a própria vida. Só Deus pode dar ao homem a riqueza que é a própria vida.
22-34
A aquisição de bens necessários para viver se torna ansiedade contínua e pesada, se não é procedida pela busca do Reino, isto é, a promoção de relações de partilha e fraternidade.
35-48
Esperando continuamente a chegada imprevisível do Senhor que serve, a comunidade cristã permanece atenta, concretizando a busca do Reino através da prontidão para o serviço fraterno. Os VV. 41-46 mostram que isso vale ainda mais para os dirigentes da comunidade, que receberam de Jesus o encargo de servir, provendo às necessidades da comunidade. A responsabilidade é ainda maior, quando se sabe o que deve ser feito (VV. 47-48).
49-53
A missão de Jesus, desde o batismo até a cruz, é anunciar e tornar presente o Reino, entrando em choque com as concepções dominantes na sociedade. Por isso, é preciso tomar uma decisão diante de Jesus, e isso provoca divisões até mesmo no relacionamento familiar.

13
1-9
No caminho da vida há acontecimentos trágicos. Estes não significam que as vítimas são mais pecadoras do que os outros. Ao contrário, são convites abertos para que se pense no imprevisível dos fatos e na urgência da conversão, para se construir a nova história. A parábola (VV. 6-9) salienta que, em Jesus, Deus sempre dá uma última chance.
10-17
O dia de sábado é expressão máxima daquilo que Jesus realiza ao curar a mulher: a comemoração da pessoa libertada. O povo se enche de alegria ao ver como o dia santificado é sinal da vida que Deus dá aos homens, e não um dia de simples rituais obrigatórios pré-estabelecidos.
18-21
Cf. nota em Mc 4, 30-34.
22-30
Jesus não responde diretamente à pergunta. A salvação é universal, está aberta para todos, e não só para aqueles que conhecem a Jesus. A condição é entrar pela porta estreita, isto é, escolher o caminho de vida que cria a nova história.
31-33
A atividade de Jesus provoca temor e reação das autoridades. Jesus não as teme, e continua a realizar a missão que liberta as pessoas e ao mesmo tempo vai levá-lo à morte.
14
1-6
A lei do sábado deve ser interpretada como libertação e vida para o homem.
7-14
Nos VV. 8-11, Jesus critica o conceito de honra baseado no orgulho e ambição, que geram aparências de justiça, mas escondem os maiores contrastes sociais. A honra do homem depende de Deus, o único que conhece a  situação real e global do homem; essa honra supera a crença que o homem pode ter nos seus próprios méritos. Nos VV. 12-14, Jesus mostra que o amor verdadeiro não é comércio, mas serviço gratuito, pois o, pobre não pode pagar e o inimigo não pode merecer. Só Deus pode retribuir ao amor gratuito.
25-35
Seguir Jesus e continuar  o seu projeto (= ser discípulo) é viver um clima novo na relação com as pessoas, com as coisas materiais e consigo mesmo. Trata-se de assumir com liberdade e fidelidade a condição humana, sem superficialismo, conveniência ou  romantismo. O discípulo de Jesus deve ser realista, a fim de evitar ilusões e covardias vergonhosas.

15
1-2
O capítulo 15 de Lucas é o coração de todo Evangelho (= Boa Notícia). Aí vemos que o amor do Pai é fundamento da atitude de Jesus diante dos homens. Respondendo à crítica daqueles que se consideram justos, cheios de méritos, e se escandalizam da solidariedade para com os pecadores, Jesus narra três parábolas. A primeira e a segunda mostram a atitude de Deus em Jesus, questionando a hipocrisia dos homens. A terceira tem dois aspectos: o processo de conversão do pecador e o problema do “justo” que resiste ao amor do Pai.
3-7
A parábola não quer dizer que Deus prefere o pecador ao justo, ou que os justos sejam hipócritas. Ela ressalta o mistério do amor do Pai que se alegra em acolher o pecador arrependido ao lado do justo que persevera.
8-10
A mulher é pobre e precisa da moeda para sobreviver. O amor de Deus torna-o vitalmente necessitado de encontrar a pessoa perdida, para levá-la à alegria da comunhão no amor.
11-32
O processo de conversão começa com a tomada de consciência: o filho mais novo sente-se perdido econômica e moralmente. A acolhida do pai e as medidas tomadas mostram não só o perdão, mas também o restabelecimento da dignidade de filho. O filho mais velho é justo e perseverante, mas é incapaz de aceitar a volta do irmão e o amor do pai que o acolheu. Recusa-se a participar da alegria. Com esta parábola Jesus faz apelo supremo para que os doutores da Lei e os fariseus aceitem partilhar da alegria de Deus pela volta dos pecadores à dignidade da vida.
16
1-8
Jesus elogia o administrador, que soube tomar atitude prudente. O Reino de Deus já chegou: é preciso tomar uma atitude antes que seja tarde demais; converter-se e viver conforme a mensagem de Jesus.
9-13
Os VV. 9-13 fazem diversas aplicações da parábola. O v. 9 recomenda o uso da riqueza em favor dos pobres. Os VV. 10-12 mostram que é impossível ser fiel nas grandes coisas, quando somos negligentes nas pequenas. E o v. 13 urge uma decisão: escolher entre o serviço a Deus e o serviço as riquezas (cf. nota em Mt 6,19-24).
19-31
A parábola é uma crítica a sociedade classista, onde o rico vive na abundância e no luxo, enquanto o pobre morre na miséria. O problema é o isolamento e o afastamento em que o rico vive, mantendo um abismo de separação que o pobre não consegue transpor. Para quebrar esse isolamento, o rico precisa se converter. Nada o levará a essa conversão, se ele não for capaz de abrir o coração para a Palavra de Deus, o que o leva a voltar-se para o pobre. Assim mais do que explicação da vida no além, a parábola é exigência de profunda transformação social, para criar uma sociedade onde haja partilha de bens entre todos.
17
1-10
Lucas reúne aqui sentenças de Jesus sobre o escândalo, a correção fraterna, o perdão, o poder da fé e a necessidade de estar desinteressadamente a serviço de Deus. São atitudes fundamentais para a vida do discípulo de Jesus.
11-19
O ponto alto da narrativa é a fé do samaritano. É fé madura: nasce da esperança (VV. 12-13), cresce na obediência na palavra de Jesus (v. 14) e se manifesta na gratidão (v. 16). Com isso, ele não só recebe a cura, mas é salvo. Sua vida chega à plenitude, ao reconhecer que em Jesus o amor de Deus leva os homens a viver na alegria da gratidão.  A vida que Deus dá em Jesus  é gratuita, é graça.
18
1-8
Insistência e perseverança só existem naqueles que estão insatisfeitos com a situação presente e, por isso, não desanimam; do contrário, jamais conseguiriam alguma coisa. Deus atende  àqueles que, através da oração, testemunham o desejo e a esperança de que se faça justiça.
9-14
Não basta ser perseverante e insistente. É preciso reconhecer e confessar a própria pequenez recorrendo à misericórdia de Deus. De nada adianta o homem justificar a se mesmo, pois a justificação  é dom de Deus.
19
1-10
Zaqueu é o exemplo para qualquer rico que deseja alcançar a salvação. Sua conversão começa com o desejo de conhecer Jesus de perto. Continua, quando de une ao povo para se encontrar com Jesus e acolhê-lo em sua própria casa. A conversão se completa quando Zaqueu se dispõe a partilhar seus bens e devolver com juros o que roubou.
21
12-19
A relação entre Deus e os homens continua através dos discípulos, que devem prosseguir a missão de Jesus pelo testemunho. Contudo, assim como Jesus encontrou resistência, também eles: serão perseguidos, presos, torturados, julgados e até mesmo mortos por continuarem a ação de Jesus. Mas não devem ficar preocupados com a própria defesa. O importante ér a coragem de permanecer firmes até o fim.
23
1-5
As autoridades querem a morte de Jesus, e o apresentam ao governador romano com três acusações que caracterizam toda a atividade de Jesus como uma grande subversão ("subversão entre o povo"): em nível econômico (proíbe pagar o tributo), em nível político (afirma ser rei), ideológico (ensinamento que provoca revolta). Pilatos, porém, declara a inocência de Jesus.
24
13-35
Lucas salienta os “lugares” da presença de Jesus ressuscitado. Primeiro, ele continua a caminhar entre os homens, solidarizando-se com seus problemas e participando de suas lutas. Segundo, Jesus está presente no anúncio da Palavra das Escrituras, que mostra o sentido da sua vida e ação. Terceiro, na celebração eucarística, onde o pão repartido relembra o dom da sua vida e refontiza a partilha e a fraternidade, que estão no cerne de seu projeto.
36-43:
A ressurreição não é fruto da imaginação dos discípulos, nem reduz a fenômeno puramente espiritual. A ressurreição é fato que atinge o próprio corpo; daí a identidade do ressuscitado com o Jesus terrestre. Qualquer ação humana que traz mais vida para os corpos oprimidos, doentes torturados, famintos e sedentos, não é apenas obra de misericórdia, mas é sinal concreto do fato central da fé cristã: a ressurreição do próprio Senhor Jesus.
44-53:
A missão cristã nasce da leitura das Escrituras, onde se percebe o testemunho de Jesus (vida-morte-ressurreição) como seu centro e significado. Essa missão continua no anúncio de Jesus a todos os povos, e provoca a transformação da história a partir da atividade de Jesus voltada para os pobres e oprimidos. A conversão e o perdão supõem percorrer o caminho de Jesus na própria vida e nos caminhos da história. A missão é iluminada pelo Espírito do Pai e de Jesus (a “força que vem do alto”).

O Evangelho de Lucas termina em Jerusalém  e no Templo, como havia começado. Daí os apóstolos partirão para a missão “até os confins da terra” (At 1,8).