terça-feira, 8 de novembro de 2011

OBSERVÂNCIA E GRATUIDADE


           Nos tempos atuais, falar de observância e gratuidade parece coisa fora de moda. Hoje em dia, essas palavras são estranhas não apenas ao nosso vocabulário, mas também às nossas atitudes. Não nos agrada termos de seguir certas leis que podem por limites aos nossos próprios desejos e decisões. Vivê-las, então, torna-se algo mais complexo e nem sempre tão agradável.
           A observância significa executar fielmente algum preceito ou lei, cumprir algo que foi estabelecido, manter a adesão a algo ou alguém. A gratuidade, por sua vez, convida à entrega total, à doação do que se é e do que se tem, ao oferecimento gratuito de algo sem esperança de receber nada em troca. Justamente por isso, ambas as atitudes parecem desafinar a orquestra do mundo atual, no qual prevalecem as atitudes de autossuficiência, de individualismo e relativismo.
Mas, na vida cristã, o que significa viver a observância e a gratuidade? Para encontrar respostas a essa questão, podemos tomar como exemplo a vida de são Paulo. Esse grande apóstolo, antes de sua conversão, observava fielmente a Lei e as tradições judaicas. Contudo, depois da profunda experiência que fez de Jesus Cristo, reconheceu que a única riqueza que vale neste mundo é a observância da lei que provém do amor de Cristo. Ele mesmo afirma: “Mas tudo isso, que para mim eram vantagens, considerei perda por Cristo. Na verdade, julgo como perda todas as coisas, em comparação com este bem supremo: o conhecimento de Jesus Cristo, meu Senhor. Por ele tudo desprezei e tenho conta de esterco, a fim de ganhar Cristo e estar com ele” (Fl 3,7-8).
          De modo radical, Paulo afirma ter deixado tudo por causa de Jesus Cristo. De fato, ele fez experiência de profunda conversão, mudou radicalmente sua vida e passou a viver na observância dos ensinamentos de Jesus. Ele aderiu fielmente a Jesus Cristo e à sua mensagem e a anunciou corajosamente.
Não teve medo de perder sua cultura, sua tradição e seu status diante de seus conterrâneos... A observância da fé cristã levou-o a relativizar tudo o que havia conquistado antes e a perceber que o tesouro maior e mais valioso somente pode ser encontrado na fé em Jesus. Tal observância levou-o a proclamar com alegria: “Fui crucificado com Cristo. Assim, já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim. A vida que agora vivo no corpo, vivo-a pela fé no Filho de Deus, que me amou e se entregou por mim” (Gl 2,20). Assim, a vivência da fé cristã e a observância de seus preceitos o levaram à profunda identificação com Jesus Cristo, e, justamente por isso, ele pôde se encontrar consigo mesmo e ser um homem verdadeiramente livre e feliz.
           Do mesmo modo, Paulo dá testemunho de vivência da gratuidade. Em sua obra apostólica, ele ofereceu gratuitamente tudo o que era e o que possuía. Quando esteve em Corinto, pregando o evangelho, fabricou tendas para suprir seu sustento (At 18,3). Embora julgasse ser correto que a comunidade o sustentasse, procurou trabalhar, a fim de não ser pesado aos fiéis. Mais tarde, ele diria aos próprios coríntios que tinha feito tudo para não lhes dar trabalho, mesmo nos momentos de privações, e que continuaria a agir assim (2Cor 11,9), pois não buscava os bens deles, mas a eles mesmos (2Cor 12,14). E completa que, de boa vontade, por amor a eles, gastaria tudo o que tinha e também se desgastaria pessoalmente (2Cor 12,15).
Paulo reconhece que todas as riquezas provenientes da fé em Jesus Cristo alcançam o seu máximo valor quando oferecidas com gratuidade aos irmãos. Ele não quis nada em troca pelo seu trabalho evangelizador. Sua atitude, nesse sentido, egoisticamente em si mesmo não consegue aproveitar-se de tais bens. A gratuidade é atitude que oferece sabor e ensina a bem utilizar tudo aquilo que somos e temos.
          Observância e gratuidade, portanto, são atitudes que nos ajudam a viver o maior mandamento apresentado por Jesus: o amor a Deus e ao próximo (Mc 12,29-31). Para o cristão, a relação entre essas atitudes é fundamental, pois a observância conduz o amor a Deus, e a gratuidade ao amor ao próximo. Além disso, nossos encontros devem também formar os catequizandos nessas atitudes. O cristão, em nossos tempos, anuncia Jesus Cristo mais por aquilo que vive do que por aquilo que fala. A vivência da observância e da gratuidade será, assim, para as pessoas que nos rodeiam, um testemunho de que vale a pena amar Jesus Cristo, ser fiel aos seus preceitos e amar gratuitamente os irmãos.

Revista ECOANDO, Formação Interativa com Catequistas, Ano VII – nº 25.

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

JESUS: ALICERCE DA VIDA ESPIRITUAL


           Certamente você já pôde observar um grupo de pedreiros trabalhando na construção de uma casa. Primeiro eles cavam um buraco no chão. Depois, constroem uma estrutura bem resistente: é o alicerce, sobre o qual se erguerá a casa. Toda a firmeza e estabilidade da casa dependem da qualidade do alicerce.
          Também a nossa vida espiritual é como uma casa: deve estar apoiada num alicerce bem firme. E esse alicerce não é outro senão a pessoa de Jesus Cristo. Em outras palavras, em toda verdadeira espiritualidade cristã, Jesus Cristo deve sempre estar em primeiro lugar. Deixar que Jesus – e somente Ele – ocupe o centro de nossa vida, o lugar mais importante em nosso coração: isso é o que se pode chamar de espiritualidade cristocêntrica.

          Conhecendo Deus por meio de Jesus

          É Jesus quem nos mostra quem é Deus: como o Pai é misericordioso, rico em amor e perdão (cf. Lc 15); como é abundante e fecunda a “água viva” Espírito que Ele faz jorrar dentro de nós (cf. Jo 4). Cristo é a única Porta para o acesso ao mistério do Deus Vivo, do Deus Trindade. Por isso, para quem é cristão, é sempre nocivo querer encontrar Deus buscando atalhos e deixando Jesus de lado: corre o risco de se construir toda uma religiosidade embasada numa imagem distorcida e falsa de Deus, moldada segundo a “moda” ou os interesses pessoais. Só olha nos olhos de Deus quem primeiro olha nos olhos de Jesus.
          Não dá, portanto, para cortar caminho, pois Jesus é o Caminho (cf. Jo 14,6). É estreitando nossos laços de intimidade com Ele, experimentando de perto seu jeito de ser e de amar é que podemos conhecer quem é esse Deus. O amor de Deus vivo e verdadeiro manifestou-se com perfeição no amor concreto de Jesus por todas as pessoas, especialmente pelos pobres, pelos doentes, pelos marginalizados. Conhecemos o rosto amoroso de Deus contemplamos o rosto amoroso de Jesus.

          Vivenciar a Espiritualidade de Jesus

          A espiritualidade é um jeito novo de viver a vida, de ver o mundo e de agir sobre ele, sob o impulso do Espírito Santo. Na espiritualidade cristã, esse jeito novo de viver não é outro senão o jeito que Jesus viveu. Ele não teve em sua vida outro vento que impulsionasse senão o sopro do Espírito Santo (cf. Lc 4, 1.14.18). Não há, pois, uma outra forma de viver a espiritualidade cristã a não ser procurar se exercitar cotidianamente na vivência da própria espiritualidade de Jesus que:
·         Retirava-se em oração para conversar longamente com o Pai (cf. Mc 1,35);
·         Deixava-se mover corajosamente pelo Espírito de Deus(cf. Lc 4, 1.14.18);
·         Catequizava e formava a sua comunidade de discípulos, enviando-a em missão (cf. Mc. 3, 13ss);
·         Fazia-se irmão dos mais fracos, aliviando-os de suas dores (cf. Mt 8, 1-4);
·         Posicionava-se contra as injustiças de seu tempo (cf. Mt, 23);
·         Aproximava-se dos pecadores, atraindo-se para uma vida nova (cf. Mt 9,9-13; Jo 4,1-30);
·         Ensinava as pessoas a construírem um mundo novo de partilha, serviço e paz (cf. Lc 6,30-44);
·         Encontrou perseguições e permaneceu firme na missão até a Cruz (cf. Jo 4,34; 18-19).

           Seguimento de Jesus: rocha firme de nossa vida espiritual

          Procurar manter os “olhos fixos em Jesus” (cf. Hb 12,2) e desenvolver os traços da espiritualidade do Mestre na nossa própria vida é o que se pode chamar de seguimento de Jesus. Seguir Jesus é estar profundamente ligado a Ele e comprometido em atualizar seu jeito no contexto em que vivemos. Seguir  Jesus significa, em outros termos, deixar-se apaixonar por Ele e prosseguir sua missão, seu jeito de viver, dentro da realidade do mundo.
         Jesus é, pois, a Rocha sobre a qual devemos construir a casa de nossa vida espiritual. Qualquer outra base que lhe queiramos dar não passará de simples areia (cf. Mt 7,24-27). Uma espiritualidade que não está bem alicerçada no seguimento de Jesus tende a ruir com o tempo e as dificuldades.
         Assim, a devoção a Maria e aos outros santos, as penitências, as procissões, as atividades pastorais e tudo o mais só tem sentido quando nos levam para Jesus, quando nos fazem mais unidos a Ele, e só. O único centro da vida do cristão – e da Igreja! – ser Jesus Cristo, e mais ninguém. Nossa Senhora, por exemplo, sempre nos pede que voltemos nosso olhar para o seu Filho: “Façam tudo o que Ele lhes disser!” (Jo 2,5). O mesmo se pode dizer dos santos: são nossos amigos, companheiros e modelos na escola do seguimento de Jesus. O apóstolo São Paulo entendeu isso muito bem: Sejam mais imitadores, como eu sou de Cristo” (1Cor 11,1). Também nas nossas atividades de apostolado Jesus deve ser sempre a fonte e a meta: é Ele quem nos chama e nos envia: é o nome d’Ele que deve ser anunciado e é por Ele que as pessoas devem se sentir entusiasmadas.

         Contemplando a vida de Jesus

          A contemplação dos mistérios da vida de Jesus é uma maneira excelente de rezar e que nos ajuda a desenvolver essa espiritualidade cristocêntrica. Sobre esse jeito de orar, temos muito a aprender com Santo Inácio de Loyola, nos seus Exercícios Espirituais.
          O que é contemplar? Contemplar é escancarar as portas e as janelas do nosso coração para admirar a beleza da vida, a beleza do outro, a beleza de Deus. É sentir e saborear interiormente o mistério que se contempla. Mistério não é algo secreto, impossível de ser conhecido, mas é algo – ou alguém – que sempre se revela novo para nós...
         O amor contemplativo nos dá acesso ao “mistério” de uma pessoa. A oração de contemplação nos põe em profunda sintonia com Jesus, nos permite perceber quais são os seus sentimentos, ações e reações, que devem também ser os nossos (cf. Fl 2,5). Para isso, a contemplação coloca a imaginação a serviço da oração.

Revista ECOANDO, Formação Interativa com Catequistas, Ano III - nº 9.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

O CATEQUISTA E OS PROJETOS PASTORAIS


          Coisas que nos fazem pensar...

          O debate estava inflamado na reunião de catequistas.

          Tudo começou quando Helena, a coordenadora do grupo, fez o convite a todos os catequistas para que participassem do retiro espiritual promovido pela dimensão missionária da paróquia, que se realizaria no próximo domingo. Alguns catequistas estavam empolgadíssimos com o retiro,  mas havia um grupo “puxando para trás”.

          Foi então que Renato falou em nome do seu grupo:

          _ Nós não vemos necessidade alguma de participarmos desse retiro. Nós somos catequistas, e não missionários. Não é um retiro para catequistas. O que vamos fazer lá?

          O termo “PASTORAL”

          Quando nos perguntam de que pastoral participamos, logo respondemos: da Pastoral Catequética! Essa resposta está certa, sob alguns aspectos, mas incompleta.
          Antes de pensarmos nesta ou naquela pastoral, precisamos pensar na missão da Igreja. Ela existe para evangelizar, para continuar a missão de Cristo, para levar a todos a  boa nova da vida, da liberdade, da justiça e do amor. E, quando falamos em Igreja, não estamos falando de uma estrutura ou de uma instituição, simplesmente. Estamos falando de todos e cada um de nós que, pelo batismo, nos tornamos também “pastores” do povo de Deus, como Jesus.
          De “pastor” vem o nome “pastoral”, que  comumente usamos para designar uma ação organizada e permanente da Igreja com a finalidade bem definidas e que requer planejamento, pessoas, recursos e... muita oração!
          Pastoral, portanto, é todo empenho feito pelos cristãos que se propõem agir no mundo como Jesus, o Bom Pastor. Ora, fazer como Jesus fez, isto é, “fazer pastoral”, exige de cada um espírito de serviço, colaboração, fraternidade, autêntica caridade, disposição e amor, sobretudo aos mais pobres. O jeito de Jesus “fazer pastoral” muito nos ensina. Sempre no meio do povo, convivendo com todas as pessoas, respeitando a história e o momento de cada um, sem nada impor... Tudo isso nos leva a questionar o modo pelo qual nossa Igreja, nossas comunidades e nós, catequistas, entendemos a nossa missão pastoral!

          As pastorais da Igreja

          Da única e mesma missão da Igreja, que é levar a todos o amor do Bom Pastor, nascem todas as pastorais e iniciativas de evangelização, também a Pastoral Catequética, que assume a tarefa específica de educar na fé crianças, jovens e adultos que já atenderam ao primeiro chamado de Jesus e precisam amadurecer no seguimento dele.
          Cada pastoral, portanto, realiza um aspecto da missão evangelizadora da Igreja, de acordo, com sua vocação. A Pastoral Familiar, por exemplo, auxilia a família de sua missão, que é santificar os relacionamentos no lar e ser fermento de santidade no meio do mundo; a Pastoral da Criança se preocupa com as crianças de 6 anos, especialmente as carentes, para que tenham vida em plenitude... E, assim, cada uma delas aponta para um jeito especial de viver a multiforme graça de Deus.
          No entanto, nenhuma das pastorais tem razão de ser isolada das outras, como se fosse um “departamento” da Igreja ou um trabalho paralelo. Quem pensa assim não entendeu nada do que é “ser Igreja”, a qual, na sua essência, é comunhão e participação. Por isso é preciso atentar para que uma pastoral não se feche no seu mundinho, esquecendo o horizonte maior da comunidade da Igreja.
          A CNBB tem falado muito de Pastoral Orgânica e de harmonia das dimensões da evangelização. Pastoral Orgânica é a vivência da unidade na diversidade da Igreja, com cada pessoa ou pastoral realizando sua missão própria, mas num corpo, em que um órgão depende necessariamente dos outros.
          Uma comparação que pode ajudar é a com um bolo de muitas camadas, cada uma com um  sabor diferente. Quando o bolo é fatiado, prazerosamente de todos os sabores das camadas, que resultam em deliciosa harmonia.

           Os projetos pastorais da catequese

           Naturalmente, a Pastoral Catequética, uma camada tão boa desse grande “bolo”, tem sua missão específica, seu jeito de agir todo especial e seus projetos que orientam os trabalhos. É bom e necessário que assim seja! Mas nenhum catequista pode se concentrar somente em suas atividades, perdendo de vista a comunidade e as tarefas comuns. É lamentável que catequistas se recusem a participar de outras atividades e experiências eclesiais enriquecedoras! Não é possível entender como verdadeira a vocação de um catequista que se limita a ir aos encontros com os catequizandos e, às vezes, nem à missa quer ir, muito menos a outras iniciativas de sua Igreja. Algo está muito errado e precisa ser revisto bem depressa!

          Revista ECOANDO, Formação Interativa com Catequistas – Ano IV – nº 14




quarta-feira, 12 de outubro de 2011

A ESPIRITUALIDADE DO GRUPO DE CATEQUISTAS

                                        Uma história para se fazer pensar.

          Dona Matilde era uma mulher muito devota, mas tinha pouco tempo para os outros.

          Um dia, ela se encontrava trancada no quarto, rezando o rosário, ouviu tocar a campainha. Irritada, foi atender. Era um andarilho pedindo um prato de comida. Rispidamente, ela lhe disse:
          _ Agora não posso, estou rezando!
          Após voltar para o quarto e retomar a sua reza, ouviu novamente a campainha. Dessa vez era a vizinha, que perdera o marido havia poucos dias e queria conversar com Matilde, para desabafar um pouco. Entretanto, a acolhida de Matilde não foi lá essas coisas:
          _ Volte mais tarde, querida, que agora não posso escutar você. Estou rezando o rosário.
          Enquanto rezava, dona Matilde cochilou e sonhou que estava se encontrando com Jesus. Imaginou-se dizendo a ele:
          _ Senhor, como eu gostaria de receber sua visita em minha casa!
          Ao que Jesus respondeu:
         _ Pois é, Matilde, hoje eu estive com você duas vezes e você não me recebeu...

                            Espiritualidade: amizade com Deus, amizade com o irmão.

          É comum ouvimos dizer que uma pessoa espiritual é aquela que reza bastante, que dedica grande parte do seu tempo pessoal à oração. Entretanto, há grande risco em pensar assim, de forma tão estreita.
          Espiritualidade é uma atitude de docilidade e de atenção constante às orientações que o Espírito Santo nos dá. E o vento do Espírito Santo nos dá. E o vento do Espírito sempre nos impulsiona na direção dos outros. Produz em nós um movimento para fora de nós mesmos, fazendo-nos solidários com i caminho dos irmãos e irmãs. Disso podemos ter toda a certeza: nunca o Espírito Santo produz nas pessoas orantes atitudes de egoísmo e de fechamento. O Espírito de Deus é o Espírito da missão: como aos primeiros discípulos, leva-nos para fora do cenáculo e nos enche de entusiasmo, para nos relacionarmos com nosso próximo por meio da linguagem universal do amor (cf. At 2).
          Assim a experiência do martírio de Deus passa necessariamente pela experiência do mistério do outro. No fundo do olhar de nossos irmãos e irmãs – sobretudo daqueles que mais necessitam de nossa palavra de conforto, de nossa mão amiga – podemos reverenciar a presença do Deus altíssimo. Quem nos garante é o próprio Jesus Cristo (cf. Mt 11,40-42; 18,1-4; 25,31-45; Jo 13,12-20): cada um de nós irmãos e irmãs é, para nós, sacrário vivo de Deus.

                                         O castelo interior e o castelo exterior

          A grande Santa Teresa D’Ávila falava da vida íntima de amizade com Deus comparando-a a um “castelo interior”. Estreitar os laços de amizade com Deus significaria, segundo uma bela imagem empregada por Santa Teresa, deixar que o Senhor fosse ocupando mais e mais moradas de nossa alma, até que pudesse chegar e se hospedar nos cômodos mais íntimos de nosso coração, tornando-se Senhor absoluto de nossa vida. Para Deus, segundo a mística carmelita, não pode haver portas trancadas em nosso interior.
          Entretanto, hoje é muito importante falar também na necessidade de construir um “castelo interior” para Deus. Ele habita não só no íntimo de cada pessoa, mas também arma a sua tenda onde há comunhão entre os irmãos. Diz Jesus: “Onde dois ou três estiverem reunidos, em meu nome, eu estarei no meio deles” (Mt 18,20). Desse modo, a presença de Deus se faz mais viva em nossa vida quando estamos unidos em seu nome, vivendo como “um só coração e uma só alma” (At 4,32). Devemos deixar Deus morar não só em nós, mas também no meio de nós. Somos mais amigos de Deus quando somos mais amigos dos outros. E vice-versa: quanto mais diferentes ao nosso próximo, mais nos ocultamos da face do Senhor.

                     O grupo de catequistas: casa em que Deus quer fazer sua morada

          Um modo excelente de construirmos para Deus esse “castelo exterior” é por meio do cultivo de uma espiritualidade do grupo de catequistas. Momentos fortes de oração comunitária e de partilha da vida e da Palavra são fundamentais para os catequistas permaneçam juntos e perseverantes na vocação. Tais oportunidades devem ser bastante valorizadas e preparadas com muito zelo e carinho.
          Todavia, a espiritualidade é atitude de docilidade ao Espírito que atravessa todos os momentos da vida; no grupo de catequistas, ela se alimentará a todo tempo de pequenos gestos de amor e atenção entre os colegas: uma conversa amiga, uma troca de experiências, uma dica legal para dinamizar os encontros, uma oferta de ajuda, um abraço de feliz aniversário... São esses gestos que costuram a tenda de Deus no meio de nós.
          Pode-se ir mais além: o grupo de catequistas de uma comunidade precisa rezar junto e viver unido, para que possa ser para o mundo espelho daquela comunhão que há na própria Trindade Divina: “Que todos sejam um só; como tu, ó Pai, estás em mim e eu em ti, que também eles estejam em nós, para que o mundo creia que tu me enviaste. Dei-lhes a glória que tu me deste, para que sejam um como nós somos um. Eu neles e tu em mim, para que eles sejam perfeitos na unidade e para que o mundo reconheça que tu me enviaste e os amaste, como me amaste a mim” (Jo 17,20-23).
          Que o Espírito nos uma num só corpo, a fim de que sejamos um, para que o mundo creia!

Revista ECOANDO – Formação Interativa com Catequistas – Ano IV – nº 14.

domingo, 25 de setembro de 2011

CELEBRAR A VIDA, VIVER A FÉ: O VERDADEIRO CULTO ESPIRITUAL

O que nos leva a participar da liturgia?

O que nos motiva para o encontro, para a celebração?

           Certamente, há muitas respostas para essas perguntas; cada um tem a sua motivação, de acordo com a sua história ou com a sua experiência pessoal com Jesus Cristo. Alguns celebram por obrigação, por medo ou por passarem uma dificuldade; outros por tradição outro porque são agradecidos pelos dons que receberam e outros ainda por amor ao Mistério celebrado e à comunidade que celebra. Não importa. Há, no entanto, algo que nos move, algo que talvez não percebamos, mas que está presente em todos e transcende as nossas motivações pessoais, levando-nos a celebrar: o amor pela vida.
           A liturgia é o lugar privilegiado da celebração da vida! Basta olharmos para os momentos mais marcantes de nossa vida para percebermos que neles nos encontramos na comunidade para celebrar:

*logo após o nascimento, nos reunimos para o batismo das crianças, como é o nosso costume;
*na doença, o sacramento da unção dos enfermos nos faz unir a nossa dor à dor de Cristo, pela salvação da humanidade.
*nós e nossos amigos nos encontramos no momento feliz em que se unem homem e mulher, numa só carne, no sacramento do matrimônio;
*reunimo-nos no momento do adeus aos nossos entes queridos, na celebração das exéquias;
*em todas as celebrações eucarísticas, nos reunimos para ouvir a Palavra de Deus e repartir o pão.

           Como nos ensina Santo Irineu, “a glória de Deus é o homem vivo”. Jesus nos disse que veio para nos trazer vida, e vida em abundância. É por isso que a encarnação, a paixão, a morte e a ressurreição de Jesus são uma liturgia, um serviço à vida de todos nós. No entanto, será necessária verdadeira e sincera adesão a esse mistério, para que nossa celebração seja realmente uma celebração da vida: é indispensável fé, a fé daquele que tem um encontro pessoal com Jesus Cristo; a fé que é um dom que depende da graça, da ajuda do Espírito Santo; a fé que não se dá, a fé que não se ensina. A fé que nos leva a celebrar a vida requer adesão da vontade ao projeto de Deus, que compreendemos pela inteligência, com base na experiência que fazemos de encontro com Jesus Cristo.
           Mas não basta apenas conhecermos o Mistério, aderirmos a ele e celebrarmos nossa vida com Deus. A Trindade - Pai, Filho e Espírito Santo – é quem nos convida para celebrar e continua atuando em nós e por meio de nós. A nossa celebração deve continuar mesmo depois que se encerram os ritos de nossa liturgia. Para que não apenas vivamos, mas Cristo viva em nós, precisamos ter a consciência do compromisso que a liturgia exige, compromisso com o outro, com o próximo com o irmão na nossa comunidade ou distante dela.
           O papa Bento XVI nos ensina, na Exortação Apostólica Pós-Sinodal Sacramentum Caritatis (O Sacramento da Caridade), que a missão primeira e fundamental que deriva dos santos mistérios celebrados é dar testemunho com a nossa vida. Nós vamos nos tornar testemunhas quando, por meio das nossas ações, palavras e atitudes, Jesus aparecer. É o mistério vivido: nos um unimos para celebrar a vida, que vai transbordar em nós e nos remeter para uma ação concreta de valorização e promoção da vida. Nosso testemunho, nossa missão, nossa ação concreta consistem em levar a pessoa de Cristo a todos, pois não podemos tê-lo só para nós. Com Cristo deveremos lutar para restabelecer a dignidade da pessoa, para transformar as estruturas injustas de nossa sociedade. É por meio da realização concreta dessa missão que a eucaristia, de toda liturgia, se torna na vida o que significa na celebração.
          “O pedido que repetimos em cada missa: ‘o pão nosso de cada dia nos daí hoje’ obriga-nos a fazer tudo o que for possível (...) para que cesse ou pelo menos diminua, no mundo, o escândalo da fome e da subnutrição que padecem muitos milhões de pessoas (...)”
(Sacramentum Caritatis, 91).
           A liturgia nos ensina e os sacramentos nos fortalecem para que façamos a diferença em meio a um mundo de incertezas, de constantes mudanças, de individualismo, subjetivismo e exaltação de valores contrários ao evangelho. Ao celebrar o que vivemos e viver o que celebramos, nossas comunidades vão se sentir animadas pelo Espírito Santo transformadas por ele, e cada pessoa se sentirá apta a fazer de sua vida verdadeiro culto espiritual.

Revista ECOANDO, Formação Interativa com Catequistas.

terça-feira, 30 de agosto de 2011

CATEQUISTAS: MULHERES E HOMENS A SERVIÇO DA DIGNIDADE

Reflexões sobre a Catequese e a Questão de Gênero


          Antes de sermos catequistas, operários, jogadores de futebol, professores, administradoras de empresas, enfermeiros, motoristas, etc., somos pessoas e, por isso mesmo, mulheres e homens.
          Enquanto criaturas de Deus, irmãs e irmãos do universo, nascemos fêmea e machos, mas a cultura, a educação e o dia-a-dia vão nos tornando o que somos chamados a ser plenamente: mulheres e homens. Isso já nos diz que ser mulher e ser homem não é uma simples questão biológica de órgãos sexuais, mas um conjunto de comportamentos, atitudes, qualidades, que nos identificam. Não é somente uma questão externa, mas de dentro pra fora.
           A(o) catequista, chamada(o) a educar crianças, jovens e adultos para que vivam uma fé maduram e plena precisa lidar muito bem com a sexualidade, com o seu “ser mulher” e “ser homem”, para colaborar positivamente na formação de pessoas equilibradas, que venham a romper com um mundo preconceituoso e doentio no que se refere ao relacionamento interpessoal.
          Vivemos numa sociedade historicamente marcada pelo preconceito de sexo ou gênero, tendo como vítima pessoalmente a mulher. Embora poucos afirmem que a mulher seja inferior ao homem, na prática, esse preconceito é mais comum do que possamos imaginar. Não é raro em pleno século XXI, ouvimos expressões machistas e discriminadoras da mulher ou atitudes que confirmem essa posição: homens que ganham mais pelo mesmo serviço, mulheres sendo impedidas ou maltratadas em profissões antes reservadas somente para homens, discriminação legal da mulher banalização do feminino nos meios de comunicação, etc.
          Mesmo dentro das nossas comunidades cristãs, que teoricamente ensinam a igualdade essencial de todas as pessoas, muitas vezes uma cultura machista se impõe, deixando as mulheres, que são a grande força da Igreja, em posição inferior nas decisões e atividades evangelizadoras. Sabemos que a Bíblia foi escrita por pessoas de uma cultura que privilegia extremamente o masculino. Embora Cristo tenha dado as mulheres um tratamento muito digno, sempre prevaleceu na história da Igreja a idéia da mulher como dependente e inferior ao homem. Tradicionalmente, o homem é considerado imagem de Deus – geralmente apresentado com características masculinas – e a mulher, igualmente criada à Sua imagem e semelhança, sempre teve dificuldade de ser vista e tratada com a mesma dignidade.
          Muitos atributos foram dados à mulher e ao homem, como se fossem características específicas de cada gênero, isoladamente. Da mulher que se diz emotiva, frágil, indecisa, passional, delicada, bela, pouco racional, feita para o lar e os filhos... Do homem se afirma ter um espírito teórico, abstrato, ser forte, independente, sincero, ativo, inteligente, etc. Na verdade, são rótulos que não correspondem à essência do “ser homem” ou “ser mulher”,mas acabaram sendo aceitos sem questionamentos, gerando a dominação do homem sobre a mulher. Mesmo com tanta luta e organização das mulheres para mudar esses conceitos, especialmente desde a década de 70 do século passado, ainda muitas dessas opiniões estão enraizadas na mente de nosso povo.
          Diante de tudo isso, cabe à (ao) catequista apresentar a verdade completa sobre a mulher e o homem, atendo-se ao seguinte:
           a)mulher e homem foram criados por Deus em igual valor e dignidade. Ambos, juntos, formaram a única e verdadeira imagem de Deus;
           b)a diferença entre “ser mulher” e “ser homem” vai além do sexo. São diferentes no modo de ver o mundo, de analisar as questões da vida, de reagir diante dos desafios. São diferentes também no corpo e nas qualidades interiores, mas ambos se completam em tudo;
           c)o fato de serem diferentes não significa que o mundo deva ser dividido em duas partes e as qualidades da pessoa também. O homem tem dentro de si a “mulher” e a mulher tem dentro de si o “homem”. A tarefa de cada pessoa é integrar dentro de si a feminilidade e a masculinidade. Só na combinação de ambas, ainda que se manifestem de modo diferente, aparece a pessoa em harmonia. Por exemplo, o homem também é intuitivo, emociona-se e chora, assim como a mulher tem competência para a administração e é independente;
           d) não se trata, naturalmente, de nivelar tudo, como se mulher e homem fossem iguais em tudo. Há de se ressaltar e valorizar as diferenças, que são enriquecedoras. Se houve um período em que a mulher batalhou pelo seu espaço e fez muitas conquistas, o homem também precisa achar o seu lugar verdadeiro. Somente no respeito é que teremos relacionamentos mais saudáveis e pessoas equilibradas;
           e) é de grande importância criar essa nova consciência nos catequizandos, valorizando suas diferenças de gênero e mostrando sua igual dignidade. Romper com os rótulos e preconceitos é um grande desafio para a catequese. A (o) catequista tem que ser o primeiro a se entender e se valorizar.

Revista ECOANDO Formação Interativa com Catequistas - Ano III - nº 10.

sábado, 13 de agosto de 2011

É NORMAL

                Olhando para a vida
          É fácil ouvir por aí que é normal: a corrupção na vida política do país e do mundo; a violência; a exploração da natureza; as drogas no meio da juventude; o alto custo da vida; mentir para conseguir vantagens; a prostituição; a gravidez na adolescência; a falta de responsabilidade; o sexo livre, desde que com segurança; a infidelidade nas relações entre homens e mulheres; o extremo entre a riqueza e a miséria; burlar as leis; "fazer as coisas por debaixo do pano"; subornar pessoas, desde que ninguém saiba; roubar dilheiro do povo; falar uma coisa e fazer outra; manter as aparências...
           Mas será verdade que tudo isso é normal? Hoje em dia, é preciso muito discernimento diante da realidade para não "comer gato por lebre", para não dizer que "pau é pedra", para não perder o bom senso, para não fazer da maldade um ideal de vida.
          E as pessoas de fé buscam na palavra de Deus os critérios para esse discernimento.
               A palavra de Deus ilumina a vida - Deuteronômio 30,15-19
          "Veja: hoje eu estou colocando diante de você a vida e a felicidade, a morte e a desgraça. Se obedecer aos mandamentos de Javé seu Deus, que hoje lhe ordeno, amando a Javé seu Deus, andando em seus caminhos e observando os seus mandamentos, estatutos e normas, você viverá e se multiplicará. Javé Deus o abençoará na terra onde você está entranto para tomar posse dela. Todavia, se o seu coração se desviar e você não obedecer, se você se deixar seduzir e adorar e servir a outros deuses, eu hoje lhes declaro: é certo que vocês perecerão! Vocês não prolongarão seus dias sobre a terra, onde estão entrando, ao atravessar o rio Jordão, para dela tomar posse. Hoje eu torno o céu e a terra como testemunhas contra vocês: eu lhe propus a vida ou a morte, a bênção e a maldição. Escolha, portanto, a vida, para que você e seus descendentes possam viver...".
               REFLETINDO
           Tudo o que somos é fruto, em parte, de nossas relações sociais e de nossa liberdade. É pela convivência que, desde pequenos, aprendemos a nos relacionar, a assumir determinados comportamentos, a entender o mundo, os outros e a nós mesmos e a fazer nossas escolhas.
           A sociedade, filha dessas relações, existe para garantir a vida daqueles que a constituem, de modo que a todos se propicie a oportunidade de crescer como pessoas, tendo como pano de fundo o bem comum.
           A vida exige a capacidade de entender que nenhum homem é uma ilha e que o desafio do encontro de liberdade é constante. A liberdade de um termina onde começa a do outro. As leis, os cosntumes sociais e ética tem a função de garantir, de acordo com as personalidades, aquilo que permite a realização de todos. Fora dessas considerações, torna-se difícil a vida comum e individual, porque ambas são realidades entrelaçadas.
          Quando falamos que algo ou alguém está ou é normal, estamos dizendo que algo ou alguém se encontra numa situação equilibrada, saudável, tranquila...
           Normalidade, para nós, lembra harmonia, paz, estabilidade, naturalidade, aquilo que está de acordo com as "normas", padrões, costumes, leis, comportamentos, da natureza ou de uma sociedade. Do ponto de vista da natureza, normal é aquilo que obedece às leis que regem as diversas etapas do mistério da vida e das coisas constituintes do mundom material. Do ponto de vista social, normal é aquilo que permite o desenvolvimento equilibrado de condições que possibilitam a vida das pessoas em sociedade.
          Quando se diz que uma situação se normalizou, significa que aquilo que estava desorganizado, em crise, em conflito, encontrou um ponto de harmonia, de equilíbrio.
          Quando se diz que " é preciso normalizar", significa que é necessário ajudar as coisas, situações ou pessoas a encontrar um caminho seguro, orientado.
          Quando dizemos que algo é normal, estamos aprovando determinada realidade, estabelecendo-a como orientação, norma, uma referência, um exemplo a seguir.
          Se as pessoas e, com elas, a sociedade começam a achar normais determinadas atitudes, situações e práticas que não promovem a dignidade do ser humano e dificultar a vida de todos, para onde caminharemos? É uma atitude inteligente propor como norma, como referência, como exemplo, realidades que não trazem a felicidade? É normal considerar o mal como se fosse um bem? é normal escolher a morte e não a vida?
          A palavra de Deus faz um convite constante para que as pessoas não considerem como normal o caminho de morte, mas encontrem e trilhem o caminho da vida.
          Catequizar é crescer e amadurecer na capacidade de discernir entre a vida e a morte e, sabiamente, escolher a vida, como discípulo missionário de Jesus Cristo.

Revista ECOANDO - Formação Interativa com Catequistas - Ano VI - nº 22.